José  Cutileiro
José Cutileiro 07 de agosto de 2013 às 00:01

Democracia árabe

Os Açores, todavia, eram de importância crucial, a Espanha de Franco nunca poderia entrar e Portugal ficou a cobrir a ponta sudoeste da Europa. Atropelo particular à democracia serviu para defender a democracia em geral

Bernard-Henri Levy escreveu em "Le Point" da semana passada a duvidar que os militares egípcios que prenderam o presidente Morsi, islâmico e eleito, sejam capazes de "como os capitães de Abril da revolução portuguesa de há quarenta anos, dar força a um movimento civil movido pelo direito e pela liberdade". Tem razão: parecem mais apostados em uso e abuso brutal do poder. Entre a intolerância obscurantista dos Irmãos Muçulmanos, minoritários, mas chegados eleitoralmente à presidência devido à divisão dos democratas, e as dificuldades destes, entre o martelo da ditadura militar e a bigorna da ditadura islâmica, o futuro do Egipto é incerto. Também na semana passada outro francês, Jean-Marie Guéhenno, antigo enviado especial das Nações Unidas e da Liga Árabe para a Síria, lembrou no International Herald Tribune que muita gente no Egipto e no Médio Oriente em geral "acredita que a verdadeira agenda do Ocidente não é democracia e justiça, mas recursos energéticos estáveis, luta contra o terrorismo e segurança de Israel", acrescentando que "nenhuma modernização se poderá conseguir se o Islão político monopolizar o poder, mas nenhuma modernização se poderá manter se o Islão político for excluído da concorrência democrática". 


Os Estados Unidos, que dão todos os anos de ajuda ao Egipto (sobretudo aos militares egípcios) mais dinheiro do que o que dão a qualquer outro país senão Israel, e a União Europeia, cujo chefe da Política Externa foi até agora o único estadista estrangeiro autorizado a visitar o presidente deposto (não há política externa europeia, mas há um chefe dela - graças ao génio de Javier Solana, espécie de Bernard Madoff de bem), têm muito a ganhar com a modernização democrática do Egipto e muito a perder se esta falhar. Na Casa Branca nem se fala de golpe militar porque, se tal fosse admitido, legislação existente forçaria Washington a suspender a ajuda ao Cairo (terminologia Orweliana quantificável acrescenta-se assim aos feitos de Obama). A hipocrisia vai servindo à espera de algum milagre.

BHL lembrou-se dos capitães de Abril. Eu lembrei-me do Estado Novo do Dr. Salazar, signatário do Tratado do Atlântico Norte de 1949 e "ipso facto" membro fundador da OTAN para defesa das democracias ocidentais contra tentações de expansão soviética. A nenhum dos aliados (e menos ainda a Salazar) ocorreu considerar o regime salazarista uma democracia. Os Açores, todavia, eram de importância crucial, a Espanha de Franco nunca poderia entrar e Portugal ficou a cobrir a ponta sudoeste da Europa. Atropelo particular à democracia serviu para defender a democracia em geral.

Mas Portugal era elo pequeno daquela cadeia. O Egipto é o maior país árabe: o que lá se passe marca tudo o resto. Ajudar democratas egípcios contra generais e mullahs é o que temos de saber fazer (ou então metemos a viola dos Direitos do Homem no saco e juntamo-nos à cleptocracia russa e ao totalitarismo chinês, pilares seguros da imoralidade do mundo).

Embaixador
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