Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 12 de setembro de 2017 às 20:45

Devem as direitas unir-se?

Começou a insinuar-se na imprensa uma pequena especulação sobre a necessidade de uma fusão ou entendimento de longo prazo entre PSD e CDS.

O Sol fez uma peça sobre o tema e já antes os colunistas Alexandre Homem Cristo e André Abrantes Amaral, no Observador e no i, haviam instigado a discussão. Se a união das esquerdas veio para ficar, as direitas só regressarão ao poder se se unirem também. É essa a tese.

 

Do ponto de vista ideológico, a ideia não é absurda. PSD e CDS têm diferenças importantes, mas não são inconciliáveis. O espaço que vai da charneira mais centrista do PSD à ala mais tradicionalista do CDS não é maior do que a amplitude dos grandes partidos congéneres - o PP espanhol, a CDU alemã, os conservadores britânicos, os republicanos americanos ou as sucessivas indumentárias do centro-direita francês. O CDS sempre quis ser a "grande casa" das tendências democráticas não socialistas e o PSD, goste ou não, está na encosta direita do centro liberal.

 

A proposta não é, também, estrategicamente desprovida de sentido. A oposição precisa de atacar a conjuntura política actualizando-se para lá do quadro mental do resgate e uma nova plataforma poderia determinar um programa mobilizador de uma nova maioria.

 

Além disso, as direitas juntas beneficiam de um enviesamento natural do sistema, por causa do método de Hondt (que favorece acordos pré-eleitorais) e da sociologia eleitoral (a direita tem mais força em mais distritos com mais peso).

 

Como já aqui referi, a propósito de outro tema, em 2015, PSD e CDS só obtiveram menos deputados do que o PS em três círculos (Açores, Faro e Setúbal). Venceram em todo o território acima do Tejo e em muitos distritos importantes - Aveiro, Leiria, Viana do Castelo, Viseu - obtiveram o dobro dos mandatos dos socialistas. Com mais oito deputados (mais 2 ou 3% dos votos), estariam a governar.

 

António Costa percebeu-o bem: é difícil impedir que PSD e CDS, juntos e mobilizadores, sejam a força mais votada. Daí a urgência dos acordos à esquerda. No fundo, a "geringonça" é que foi uma resposta à união das direitas.

 

A ideia tem, contudo, riscos importantes, quer para a direita quer para o regime. Desde logo, há o risco de a soma das partes acabar por ser inferior às próprias partes, se se abrir espaço para o surgimento de outras forças, capazes de angariar os descontentes com a união das direitas tradicionais. Uma consequência especialmente infeliz, e não implausível, se significasse a ascensão do populismo iliberal que por aí grassa.

 

Depois, há o risco de eternização da crispação dos últimos anos. Não se pode andar a dizer que a união das esquerdas é uma solução artificial, que o PS devia ter estendido a mão à direita, de quem está mais próximo no essencial, e que isso se vê na ausência de uma agenda reformista séria por parte do Governo, mas querer institucionalizar um sistema bloqueado de dois monólitos políticos incompatíveis, sem geometrias variáveis ao centro que lhe dê capacidade de compromisso e adaptação às circunstâncias.

 

No imediato, porém, são dois os riscos de PSD e CDS se remeterem a estas deambulações existenciais. Em primeiro lugar, o risco de o Governo ficar sem a oposição focada, irredutível e quotidiana que merece. Em segundo lugar, o de a direita aceitar a tese de que, sem uma fusão ou coligação, deixará Costa governar o país por mais dez anos. Nos últimos dois anos quase ninguém previu a "geringonça", o Brexit, Trump ou Macron. Quem é que acha que pode prever o que quer que seja dos próximos dez?

 

Advogado

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