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Cristina Casalinho - Economista 18 de Setembro de 2018 às 20:56

Dez anos depois da falência do Lehman Bros

As crises são um fenómeno natural, resultando na maioria dos casos de situações de fuga para frente, de excesso de confiança ou desespero, de grande inovação desenfreada. Uma vez que nunca se conseguirá antever ou eliminar crises, importa avaliar o grau de preparação e a capacidade de controlo de futuras crises.

A falência do banco norte-americano Lehman Bros constitui um dos ícones da crise financeira global, a qual pôs em causa o normal funcionamento dos mercados financeiros, expondo o mundo a uma quebra de confiança inimaginável. A ação pronta, concertada e sincrónica das autoridades à volta do mundo, injetando liquidez e capital num sistema bancário exangue, foi determinante na contenção da crise.

 

As crises são um fenómeno natural, resultando na maioria dos casos de situações de fuga para frente, de excesso de confiança ou desespero, de grande inovação desenfreada. Uma vez que nunca se conseguirá antever ou eliminar crises, importa avaliar o grau de preparação e a capacidade de controlo de futuras crises.

 

Na atualidade, estritamente ao nível do sistema financeiro regulado, constata-se que o sistema está mais robusto a choques: a regulação é mais direcionada e eficaz; o padrão de supervisão mais próximo, interventivo, atento e capaz; as estruturas de capital mais fortes; os mecanismos para absorção de choques melhores; e, as políticas de tomada de risco mais escrutinadas. O risco de ignição e propagação afigura-se mais circunscrito.

 

Para além dos progressos a respeito da estabilidade financeira, identificam-se, todavia, focos de tensão. Se o elevado grau de alavancagem em 2007 correspondia a máximos históricos, a dívida mundial continuou a crescer. No entanto, sendo o acréscimo por via de crédito ao sector privado nas economias emergentes e endividamento público nos países desenvolvidos, os riscos de crise global serão tendencialmente mais contidos comparativamente a uma crise de dívida do setor privado nas economias avançadas.

 

Se o gigantismo dos bancos foi apontado como causa da crise, hoje os principais bancos não são mais pequenos nem a atividade menos concentrada. Se a concentração na indústria bancária causou preocupação, o que pensar quando algumas estimativas recentes apontam para que em 2026, as duas maiores gestoras de fundos do mundo detenham 50% da totalidade dos fundos sob gestão. Se a proliferação de instituições financeiras não reguladas contribuiu para a crise, hoje a dimensão deste segmento do mercado é a maior de sempre.

 

Por outro lado, embora o apetite dos bancos pela participação em operações mais arriscadas se tenha reduzido, tal não significa que o risco seja necessariamente menor. Em muitos casos, o risco não diminuiu, apenas foi transferido para outras partes do sistema financeiro. Por exemplo, os bancos têm vindo a diminuir as suas posições em dívida titulada com risco, as quais têm vindo a ser absorvidas por fundos de investimento, companhias de seguros, fundos privados de capital, etc. Estas são entidades sujeitas a graus de supervisão menos intrusivos e, mais importante, tradicionalmente dispõem de menos instrumentos para lidar com risco.

 

O facto de os bancos estarem menos predispostos a comprar e vender títulos no mercado para a carteira própria, funcionando como mecanismos de absorção de choques, a par da intensificação das transações em plataformas eletrónicas parecem apontar para o aumento da frequência de picos de volatilidade em que as transações param sem que os preços deixem de cair, gerando forte incerteza nos mercados.

 

Passados dez anos, a crise foi controlada, os focos de tensão estão mais contidos, mas somente agora se abandona o estado de exceção. Ainda se desconhece como o mundo financeiro vai digerir a redução de liquidez global, sobretudo num contexto de elevado nível de dívida, modesto crescimento económico e a baixa inflação. Começa agora o desafio da saída da crise.

 

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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