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opin | O Funcionário VII 17 de Junho de 2005 às 13:59

Diário de treino

Era o meu primeiro dia de trabalho. Encontrei-me às oito da manhã para tomar o pequeno-almoço com o meu «professor» – o Alonzo. Tinham-me dito durante o recrutamento que a primeira semana seria para aprender o que era o fio da navalha. Na altura não conse

Na altura não consegui entender de imediato o que é que aquilo queria dizer. Depois explicaram-me – «este sector só funciona com gasosa». Continuei sem perceber. «Corrupção, estás a ver António?» – começava a ver. Mas eu precisava daquele emprego.

O Alonzo, não era homem de muitas falas. Quase me tinha descomposto por interromper a leitura matutina do seu jornal. Acabou por me dar boleia no seu Chevrolet Monte Carlo...

A manhã começou com uma espécie de lavagem ao cérebro, onde o objectivo era o de branquear a imagem negativa que se tem sobre aquele que corrompe.

«Conhecem algum termo depreciativo para quem corrompe?» Ainda tentei balbuciar uma resposta, mas a minha intenção foi cortada. «Claro que não. Depreciativo é ser corrompido – a esses é que chamam corruptos. Já os nossos avós sabiam quem era esperto ou não quando não hesitavam em colocar uma nota entre a carta de condução e o livrete, antes de os entregarem ao senhor guarda. Isso é que era ser vivo.» E Alonzo continuava – «Até o Código Penal atribui uma punição menor aquele que corrompe (6 meses a 5 anos) do que aquele que aceita corromper-se (1 a 8 anos).»

Depois desvalorizou ainda mais o pecado, com a explicação de que havia uma figura na lei que praticamente não tinha punição associada – «a corrupção para a prática de actos lícitos» (desses em que o nosso requerimento é apenas mudado da parte de baixo para a parte de cima da pilha, mas em que a aprovação se faz dentro das normas). Essa corrupção (se assim se podia chamar, segundo ele,...) era, aliás, considerado um mal menor face à necessidade de contornar a praga da burocracia.

Já estava quase convencido de que a corrupção não era um pecado capital.

Após a primeira lavagem, já não me sentia muito mal quando atacámos a parte do pequeno curso que tratava do combustível que movia o corrupto. Dinheiro? Não só: um emprego aqui, uma promoção acolá; uma licença de construção aqui, uma passagem no exame acolá. Sim, até o objecto da corrupção pode servir de moeda de troca mais à frente. Alonzo explicou: «se A, funcionário público, quiser corromper B, pode prometer a B a obtenção da licença de construção que ele tanto ambiciona, a troco de um favor que consiste em arranjar junto de C um emprego para a sua filha; C, por sua vez, conseguirá a alteração no PDM que tanto ambiciona, se pagar uma elevada quantia a A.» Tentando brilhar, perguntei a Alonzo se uma vantagem também podia consistir na promessa da eliminação de um mal. Ele respondeu-me que não, que isso era mais do foro da chantagem – mas ficou pensativo.

Depois do combustível, seguiu-se a mecânica do corrupto. Foi explicado que o processo de corrupção origina-se e consuma-se num processo decisional: aquele que se inicia com um problema e termina com a escolha de uma alternativa entre as várias que entretanto foram geradas.

A fase de geração de problemas está para o corrupto, como o óleo na estrada está para o bate-chapa: é o papel (qual papel?) que falta entregar; é o estudo económico que é conveniente ser feito; é a declaração de IVA que anda perdida; é a licença para fechar a varanda que é melhor obter; é o terreno onde ficava mesmo bem a futura urbanização; é o jogo que tem que ser ganho; é o radar às três da manhã na recta sem trânsito onde foi esquecido o sinal de proibição de circular a mais de 40; etc. Ou seja, há que criar a razão de ser de uma potencial corrupção.

A fase de geração de alternativas não existe em corrupção (quanto muito existe a fase de falsa geração de alternativas, que ocorre quando se chamam concorrentes descartáveis para um concurso – vêm só para fazer número, pois o vencedor está à partida escolhido). O que existe é a fase de eliminação de alternativas: a despesa que é cortada em pequenas fatias para evitar os montantes que impõem a realização de concurso público (e, portanto, o aparecimento de mais concorrentes); o concurso público que, a existir, é anunciado num jornal de baixa tiragem; o caderno de encargos que sai hoje, para ser respondido ontem; os requisitos de admissibilidade que impõem que os concorrentes possuam características que se sabe só um deles possuir; ou o âmbito demasiado vago, que só é conhecido em detalhe pelo concorrente que corrompe.

A fase de escolha é aquela em que a corrupção encontra o seu habitat natural: a grande penalidade mal assinalada, as pontuações mal atribuídas, ou mal somadas; a proposta que, por ter sido entregue depois do prazo, já vai com o preço ganhador; a multa rasgada; o PDM alterado; enfim, tudo aquilo que nós sabemos.

Alonzo recapitulou a mecânica – criação de problemas, eliminação de concorrentes e decisões irracionais – e atacou a última parte do curso: os pagamentos.

«Meus amigos, é chegado o momento de vos ensinar a coisa mais importante deste dia de formação: quem paga ao corrupto, não pode deixar rasto.» Ministrou-nos mais uma sessão de Direito, em que aprendemos que não deixar rasto significava não deixar «documento»; entendendo-se por documento «qualquer objecto elaborado pelo homem com o fim de reproduzir ou representar uma pessoa, coisa ou facto» – ou seja, assinaturas, fotografias, gravações, desenhos...

Entre as muitas perguntas feitas nesta secção do curso, houve duas que retive: se as notas, sendo de papel, eram documentos (?) – não eram, porque não representavam dinheiro, eram-no; se as matrículas dos carros, sendo chapas, eram documentos (?) – eram, tal como o livrete e título de registo de propriedade o são.

A noite estava fria. Calcei as luvas e fui para casa. Repeti mentalmente as três partes do curso: estuda as formas de pagamento, estudando os hábitos do corrupto; concentra-te na mecânica do corrupto, lembrando-te das três partes essenciais – problema, alternativas (ou a sua eliminação) e escolha; e, finalmente, não deixes rasto – faz as coisas de boca e em notas.

Cheguei a casa. Descalcei as luvas e fiquei pensativo a olhar para elas. Depois, já na cama, escrevi estas páginas do diário.

Um ano mais tarde tê-las-ia escrito com a Sheaffer Nostalgia – oferecida por um fornecedor. Dois anos mais tarde teria verificado a hora de apagar a luz no meu Daniel Roth Papillon – oferecido por um cliente a quem autorizei um desconto nunca antes imaginado.

Nunca aceitei carros. Têm matrícula.

Aqui há dias vi o Alonzo. Continua igual. Perguntou-me, no seu tom arrogante, se ainda me lembrava do curso. Respondi-lhe que sim. Perguntou-me se já me tinha servido para conseguir obter os préstimos de alguém.

Respondi-lhe que não. Riu-se com ar de desprezo, abanando a cabeça, enquanto entrava para o seu «Chevi«. Será que não percebeu? Ou percebeu? Da minha boca nada sairá.

Um corrupto deve saber guardar silêncio´.

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