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Direito ao espanto

A gestão da crise financeira na Europa está a provocar uma série de danos não só nas vivências individuais mas acima de tudo no próprio projeto europeu.

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A gestão da crise financeira na Europa está a provocar uma série de danos não só nas vivências individuais mas acima de tudo no próprio projeto europeu. Quando tudo exigia cooperação aumentam as rivalidades; quando mais precisávamos de sinergias vemos emergir o antagonismo e o ódio entre os povos. Quando devíamos apostar na inovação assistimos à regressão.

A arrogância, o desprezo e o insulto dos grandes contra os pequenos estão a gerar um ambiente insalubre que recorda o tempo das guerras que devastaram a Europa. Declarações e discursos, sobretudo por políticos alemães, fazem lembrar os piores momentos da retórica belicista. Uns propõem que se abandone os pequenos países à sua sorte. Há mesmo quem defenda que estas nações párias devam ser governadas a partir de Bruxelas. Coisa que aliás já se acontece com as Troikas. Ou quem, formal e informalmente, faça ameaças ou dê conselhos paternalistas ao ouvido de ministros submissos.

A política que tem sido seguida pelo governo conservador na Alemanha está a abrir feridas que podem vir a tornar-se insanáveis. Para já são os gregos os que mais frontalmente exibem raiva e ódio contra esta nova forma de ocupação germânica, já não nazista, já não pela força das armas, mas cujos contornos de dominação e destruição do país e dos seus cidadãos se apresentam como similares. A Grécia está ocupada. Colocada de joelhos. Vendida a pataco. A democracia foi suspensa. A dignidade estilhaçada.

Com o andar da carruagem, outros povos poderão seguir-se. Em Itália, por exemplo, também já não vigora a democracia. Em seu lugar apareceram uns chamados tecnocratas, uma espécie de regentes sem legitimidade popular.

As atuais soluções geram mais problemas do que aqueles que pretendem resolver, conduzindo a Europa no seu todo a um ciclo de decadência. Porque tudo está interligado a miséria de uns afeta a economia de todos. Se os gregos, os portugueses, os espanhóis, os italianos consomem menos, os alemães vendem menos. A Alemanha, cuja robustez económica assenta na exportação, já está em recessão.

Mas pior. A presente crise não significa somente o fim do estado social, o esmagamento da classe média ou o alastramento do desemprego e da pobreza. Trata-se sobretudo de bloquear a capacidade da Europa de evoluir num mundo aberto, global e muito competitivo. A fanática obsessão com as chamadas dívidas soberanas não deixa espaço para mais nada. Os governos europeus não estão só a cortar salários e pensões. Estão igualmente a retirar o financiamento essencial para a inovação, para a investigação e avanço do conhecimento, para a educação e também para a cultura, base fundamental da afirmação europeia no mundo e motor do seu desenvolvimento. A péssima gestão da crise financeira está a desvalorizar a inteligência e a criatividade europeias. E não devendo nós competir globalmente ao nível da miséria, dos baixos salários e da produção de ninharias, esse défice de inteligência e criatividade vai prejudicar a presença da economia e da cultura europeias no mundo. Em suma, estamos em risco de perder a única verdadeira vantagem competitiva. A da nossa liberdade, cultura, capacidade de inovar e inventar coisas novas. E também a forma de funcionar em rede, combinando diversas culturas e saberes, aproveitando o melhor de cada uma.

A Europa, que em tempos foi em si mesmo um projeto inovador, uma "federação de singularidades" como lhe chamou Toni Negri, está em vias de se reduzir a um mero conglomerado cuja holding é a Alemanha. Neste verdadeiro rapto da Europa acicatam-se ódios e rivalidades, perde-se a dinâmica da cooperação, desbaratam-se talentos.

Almada Negreiros, que se definia como um "homem que vive espantado de existir" exortava, já perto dos anos 20, os portugueses a finalmente entrarem no seu século. Dizia, "as pessoas estão cada vez mais avisadas, dão-se conta de tudo, menos da época em que vivem".

Estamos em 2012 e é evidente que a Europa resiste a entrar no século 21. A época mudou, o mundo mudou, mas não podemos permitir que nos tirem o espantoso prazer de existir.



Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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