Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 01 de maio de 2019 às 18:00

Dividir para não reinar

Num aspecto, as eleições espanholas foram imediatamente clarificadoras: a esquerda poderá governar; a direita não. Se a direita - a espanhola e não só - quiser perceber o que aconteceu, há muito por onde aprender.

O primeiro facto a constatar é que a multiplicação de partidos com expressão nacional - Partido Popular, Ciudadanos e Vox - levou simplesmente a uma desagregação matemática. Não foi uma multiplicação virtuosa, capaz de gerar um resultado maior do que a mera soma das partes. Pelo contrário: foi uma pura divisão do eleitorado fiel que já existia, sem qualquer crescimento no eleitorado mais flutuante do centro.

 

Portanto, se alguma clarificação ocorreu, foi apenas uma clarificação interna, dentro do espaço das direitas. O debate foi vivo e catártico, mas no fim de contas, do ponto de vista da conquista de influência social e cultural, foi também absolutamente estéril.

 

O eleitorado que o Vox conquistou veio do PP. O mesmo acontece com o Ciudadanos, que quando cresce é igualmente à custa dos Populares. Aliás, nos últimos anos o Ciudadanos tem-se assumido cada vez mais como uma alternativa de centro-direita, desviando-se da ideia de charneira centrista do regime, porque percebeu que na circunstância as probabilidades de crescimento são mais fortes se apontar à jugular do PP.

 

No PP permanece hoje o que ainda resta do espírito tendencialmente maioritário da direita tradicional, com as pessoas que se sentem confortáveis em grandes coligações das correntes da direita democrática, mais conservadoras ou mais liberais, em que umas e outras atenuam mutuamente as respectivas tendências hegemónicas e se orientam para o exercício pragmático do poder através da interpretação actualista e politicamente realista dos seus valores fundamentais.

 

No Ciudadanos temos uma direita mais liberal, que não quer conviver com os conservadores mais empedernidos, ou que simplesmente acha que o PP é um cadáver moral, por causa da corrupção.

 

No Vox temos as várias matizes do saudosismo antiliberal e reaccionário, que estrategicamente se definem pela guerra cultural à "ditadura progressista" da esquerda identitária e pela guerrilha interna à "direitinha cobarde" do PP.

 

O surgimento do Vox e a consolidação do Ciudadanos só são uma novidade da perspectiva da representação partidária. Do ponto de vista da sociologia política, não há nada de novo: antes o PP representava esta gente toda: hoje esses três eleitorados estão divididos em três partidos. Globalmente considerado, o eleitorado é basicamente o mesmo.

 

Ou seja, a direita fragmentada, que supostamente iria ser mais capaz de defender os seus valores, não só não conseguiu crescer como ficou mais fragilizada. E porquê? Primeiro, por causa do sistema eleitoral: sem a dispersão de partidos, os mesmos votos da direita tinham dado para muitos mais deputados. Segundo, porque a direita se apresentou com a sua faceta radical mais sublinhada e aguerrida, o que a impediu de cativar o centro (não há mais direita por onde crescer).

 

Grande parte do eleitorado não gosta das movimentações da esquerda identitária (foi também por isso, de resto, que o Podemos perdeu muito peso). Mas esse eleitorado, ao olhar para a direita, viu um discurso igualmente sectário, traumatizado e revanchista, numa busca inútil de um qualquer âmago mitológico que não interessa a quase ninguém. E isto é culpa do Vox, mas também do PP, que por medo resolveu seguir a estratégia suicida de imitar a direita radical. Aqui, sim, é que o PP foi a "direitinha cobarde".

 

Fala-se muito da vitória do Vox, por oposição à derrota do PP. Mas o que é que Abascal e companhia ganharam? Se o Vox se apresenta como um tanque de guerra cultural, o que é conseguiu verdadeiramente? Conseguiu isto, apenas: que a Espanha continue a ser governada pelos socialistas, agora bastante reforçados e com a faca e o queijo na mão.

 

Pelos vistos o PSOE governará sozinho. E se precisar de alguma coligação ou acordo pontual, poderá escolher a esquerda da "ditadura progressista", os nacionalistas inimigos da unidade do Reino, ou o "catavento laranja" de Rivera, que se alguma direita representa é só a "direitinha cobarde" imigrada do PP. Foi isto que a direita conseguiu. Bom proveito.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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