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Simon Johnson 13 de Junho de 2016 às 20:30

Donald, o destruidor

O populismo autoritário que Trump incorpora desafiou democracias desde, pelo menos, o fim da República Romana. Os autoritários sempre espancaram os seus adversários - fisicamente, nos tribunais, e agora no Twitter – para os manterem calados.

Donald Trump, o presumível candidato do Partido Republicano às eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Novembro, não é, claramente, um republicano padrão. Os líderes do partido lutaram contra ele durante as primárias, e muitos ainda se recusam a apoiá-lo. Trump está agora a harmonizar algumas das suas propostas políticas com ideias republicanas tradicionais, mas também está claramente determinado a manter a sua identidade distinta.

 

A mistura ideológica resultante compreende três componentes principais: uma animosidade virulenta contra os imigrantes, uma retórica anticomercial ignorante e um sentimento extremo antigoverno. Individualmente, nenhum destes componentes seria prejudicial. Juntos, constituem um grande golpe para os EUA e para a prosperidade global, ao mesmo tempo que diminuem a segurança nacional e internacional.

 

Sem dúvida, Trump é o candidato presidencial mais anti-imigrante que os EUA já viram nos tempos modernos. A sua primeira ideia e principal slogan é "construir um muro" ao longo da fronteira sul do país, que impediria supostamente a entrada de imigrantes mexicanos e outros. Trump também quer deportar 11 milhões de pessoas e impedir a entrada de todos os muçulmanos.

 

Esta é a receita para um estado policial – verificar identidades, invadir as casas das pessoas e encorajar os vizinhos a darem informações sobre os outros. Trump também é antiamericano, no sentido em que põe em causa tudo o que o país tem alcançado. Os EUA são uma nação de imigrantes - a melhor do mundo na integração das pessoas que chegam. Depois de uma geração no país, ninguém se importa com a origem da sua família. 

 

Trump - e aqueles que lhe dão poder – atirariam tudo isto pela janela fora. A desagregação social causaria, por si só, não apenas uma desaceleração económica, mas um declínio sustentado do PIB e dos rendimentos.

 

A posição anticomercial da campanha de Trump é igualmente chocante, incluindo para a comunidade empresarial. Trump quer genuinamente confrontar a China e outros países com uma potencial guerra comercial, ignorando completamente o seu impacto sobre os EUA (onde as exportações representam cerca de 14% da actividade económica total). Os EUA passaram os últimos 70 anos a ajudar a construir um sistema global que, apesar das suas falhas, permite aos países negociar pacificamente e através de grandes distâncias. A promessa de Trump de rasgar as regras é uma receita para outra Grande Depressão, com desemprego em massa e milhões de pessoas incapazes de pagarem as suas hipotecas, empréstimos estudantis e outras dívidas.

 

Trump acrescentou alguns temas da tradicional agenda antigoverno dos republicanos, mas com as suas próprias (e grandiosas) distorções. A reforma financeira seria completamente revogada, independentemente das consequências. Os EUA voltariam ao regime que conduziu o sistema financeiro mundial à beira do colapso total em 2008 - e que levou o país a perder pelo menos o equivalente ao PIB de um ano (mais de 20 biliões de dólares).

 

Além disso, a redução de impostos proposta por Trump seria muito grande – o que conduziria ao aumento do défice orçamental e da dívida pública. Trump vai basear-se na reivindicação republicana típica de que os cortes nos impostos vão "pagar-se a si próprios" ou conduzir a um rápido crescimento. Tais afirmações estão completamente em desacordo com a experiência americana moderna, incluindo o tempo da presidência de George W. Bush.

 

Esta abordagem à política económica é o populismo clássico: prometer aos eleitores coisas impossíveis, particularmente quando as consequências negativas das promessas só se tornam aparentes mais à frente. Se Trump for eleito, os americanos podem esperar o mesmo tipo de ciclo económico visto repetidamente em locais como a Argentina ao longo dos últimos 100 anos. A desigualdade aumentaria - com um pequeno número de muito ricos e um grande número de pobres – e seria seguida por uma situação traumática em que os ricos continuavam ricos, a classe média ficaria mais pobre e a rede de segurança social ficaria rasgada em pedaços.

 

No nosso livro "White House Burning", James Kwak e eu enfatizamos que a sustentabilidade orçamental é importante não só para a prosperidade económica, mas também para a segurança nacional. Em 1814, os britânicos foram capazes de incendiar a Casa Branca (e a maioria dos outros edifícios oficiais em Washington, DC), porque os políticos americanos minaram completamente a capacidade orçamental do governo central. Os EUA não tinham uma marinha eficaz, tinham um exército fraco e falta de capacidade de mobilização numa situação de emergência nacional. 

 

A promessa de Trump de "tornar a América grande novamente" é uma fraude política. Os populistas prometem qualquer coisa, incluindo políticas que são insustentáveis ou que conduzem a um desastre certo. As políticas propostas por Trump não são diferentes: iriam minar a segurança da América, deprimir a sua economia e destruir o sistema financeiro.

 

O populismo autoritário que Trump incorpora desafiou democracias desde, pelo menos, o fim da República Romana. Os autoritários sempre espancaram os seus adversários - fisicamente, nos tribunais, e agora no Twitter – para os manterem calados.

Os opositores de Trump não devem ficar intimidados. A sua ascensão representa o mais profundo desafio à democracia norte-americana desde que a Alemanha invadiu a Polónia em 1939. A rejeição da sua candidatura é necessária para manter a América e o mundo seguros.

Simon Johnson é professor na Sloan School of Management do MIT e co-autor do livro "White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You".

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org 
Tradução: Rita Faria

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