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José Maria Brandão de Brito - Economista 21 de Maio de 2012 às 23:30

Duas semibreves

Além da expressão de uma convicção ideológica, que num passe transforma a tragédia individual e colectiva numa oportunidade, o primeiro-ministro terá de ponderar melhor a forma como se dirige e o que transmite aos portugueses.

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Além da expressão de uma convicção ideológica, que num passe transforma a tragédia individual e colectiva numa oportunidade, o primeiro-ministro terá de ponderar melhor a forma como se dirige e o que transmite aos portugueses.


1. François Hollande e Angela Merkel

Escrevo na tarde de domingo, tendo apenas informações parciais sobre a forma como decorreu o jantar oferecido ontem, em Camp David, pelo Presidente Obama aos membros do G8: todos os participantes demonstraram, com maior ou menor convicção, a sua preocupação com a crise do euro, a falta de crescimento e o consequente disparo do desemprego.

O recentemente eleito presidente francês, sem ter deslumbrado, nem deixar antever que vai provocar uma revolução na forma como está a ser gerida a crise europeia, tem dado sinais encorajadores no que se refere à sua posição e, portanto da França, sobre o reafirmar da vontade de convergir com a Alemanha na defesa da UE, mas marcando o seu distanciamento em relação à Chanceler alemã, à sua teimosia sobre a política de austeridade imposta aos países mais vulneráveis da zona euro e à afirmação de algumas alternativas possíveis.

Aliás, em Camp David, ficou claro que a Chanceler está isolada na rigidez dos pontos de vista que há dois anos vem defendendo. Enfim, suavizando o discurso, sempre vai dizendo que não há divergências substanciais entre ela e Hollande "o crescimento e o equilíbrio das contas públicas são as duas faces da mesma moeda". A questão é que parece que a moeda só tem uma face, a da austeridade: o dinheiro para pagar aos credores tem de aparecer mesmo que o doente, tratado sem dó nem piedade, morra da cura.

Hollande representa hoje a esperança de quem pensa diferente e vê nele o porta-voz de algum bom senso e de moderação, de sensibilidade política e social, em relação ao fanatismo ideológico e à inflexibilidade mostrada pelos actuais administradores da Europa. Mais, Hollande traz para a agenda europeia uma componente política que há muito estava arredada e talvez consiga fazer regressar o método comunitário para a resolução dos problemas em vez do exclusivo e pouco democrático modelo intergovernamental prevalecente. Devemos estar a atravessar os momentos de maior pessimismo em relação à forma como a inflexibilidade de uns se está a transformar na inviabilização do projecto europeu. Afinal quem aproveita o fim da UE que nos estão a servir? Ao grande sector financeiro mundial que agita e excita os mercados até ao paroxismo, até lançar os europeus na descrença e os gregos no desespero que deu aqueles inconcebíveis resultados eleitorais, levando-os a actuar de forma desconcertante e desconhecida que só tem alguma semelhança no suicídio colectivo das baleias? Aos Morgan deste mundo, agora com os seus "boys" em lugares chave?

2. Passos Coelho e Miguel Relvas

Para estes dois membros do nosso Governo foi uma semana terrível.

Para Miguel Relvas porque através de meios desmentidos, de falsos enunciados, de desculpas pedidas por actos que, no momento anterior, se tinha afirmado peremptoriamente não ter cometido, ficámos todos a saber como vai a promiscuidade entre o poder político, as polícias secretas (?!) e os interesses privados. Um ministro que se deixa envolver neste tipo de situações, causadoras de escândalo e de grande melindre, fica perigosamente ferido na sua credibilidade.

Com o primeiro-ministro, a questão é diferente: a sua afirmação de que a perda de emprego deve ser vista como uma oportunidade de mudar de vida, não foi uma gafe, foi uma afirmação ideológica que demonstra como, quando se distrai das defesas, o seu discurso é consistente com outra frase que lhe é atribuída, de estar a cumprir convictamente o memorando da Troika, porque ele representa exactamente a ideia que tem de governação para os portugueses hoje e aqui. Mas ambas as expressões significam, além de mau gosto, também uma enorme falta de sensibilidade política e social pouco compatíveis com a posição que ocupa. Passos Coelho já teria avaliado o que pensarão os mais de 800 000 cidadãos portugueses desempregados, que empobrecem todos os dias e encaram o futuro com uma insegurança angustiante? Além da expressão de uma convicção ideológica, que num passe transforma a tragédia individual e colectiva numa oportunidade, o primeiro-ministro terá de ponderar melhor a forma como se dirige e o que transmite aos portugueses.



Economista. Professor do ISEG/UTL
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