Manuel  Falcão
Manuel Falcão 13 de setembro de 2019 às 10:54

E a corrupção, não se fala dela?

A campanha eleitoral ainda não começou e já estou enjoado com os preliminares. Reza a tradição que quem faz preliminares enjoativos dificilmente será lembrado por alcançar os píncaros.
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Acima de tudo a vida de um fotógrafo não pode ser pautada pela indiferença.
Robert Frank

E a corrupção, não se fala dela?
A campanha eleitoral ainda não começou e já estou enjoado com os preliminares. Reza a tradição que quem faz preliminares enjoativos dificilmente será lembrado por alcançar os píncaros. É espantoso como duas décadas passadas do novo século, com o panorama de consumo dos meios de comunicação todo virado do avesso em relação há meia dúzia de anos (nem vou mais longe), os políticos, salvo raras e honrosas excepções, actuam como no tempo da Idade da Pedra comunicacional. Entre os incumbentes do Parlamento a falta de imaginação é galopante, o conformismo é reinante, a amnésia é dominante. As campanhas são baseadas em promessas e, em política, já se sabe que promessas leva-as o vento. Uma vez concluídas as eleições, as promessas ficam no saco dos materiais a esquecer. Mas este ano, nestas eleições para o Parlamento, o que mais me espanta é que não se fale praticamente de corrupção, dos numerosos casos que envolveram deputados, partidos e governantes e que durante meses foram noticiados com destaque e minúcia. Em vez de ouvirem promessas, os eleitores deviam olhar para o que os eleitos fizeram com os votos que receberam. O balanço não favorece quem agora pede votos depois de ter estado sentado no Parlamento. Cada vez que ouvirem um deles a fazer promessas recordem-lhes os casos em que andaram directa ou indirectamente envolvidos, as corruptelas a que fecharam os olhos e as trafulhices que permitiram em faltas, viagens, compadrios familiares. A política, nesta campanha, está ao nível do WC.

Semanada

O apoio do Estado à compra de automóveis elétricos esgotou a quatro meses do fim do ano na última década a percentagem de docentes com mais de 50 anos em Portugal saltou de 22% para 41% e o país tem agora uma das classes docentes mais envelhecidas da OCDE apenas 1% dos professores em Portugal tem menos de 30 anos enquanto nos países da OCDE a média é de 10% segundo a Organização Mundial da Saúde, Portugal é um dos quatro países em que se registou uma diminuição da despesa pública em saúde entre 2000 e 2017 a média comunitária de mortos em acidentes rodoviários é de 49 mortes por milhão de habitantes e em Portugal verificam-se 58 mortes por milhão, o que nos coloca no décimo lugar dos países com sinistralidade mais grave em julho as exportações subiram 1,3% mas as importações dispararam 7,9% a nova versão do filme "Rei Leão" é o filme mais visto em Portugal desde 2004 e já teve cerca de 1,3 milhões de espectadores as obras de recuperação do Palácio da Ajuda vão custar o dobro do que estava previsto em Portugal menos de um terço dos inscritos em universidades conclui a licenciatura em três anos e a taxa de abandono no final do primeiro ano é de 12% no primeiro ano do mandato de Frederico Varandas, o passivo do Sporting subiu 42,3 milhões de euros em relação ao exercício anterior e é agora de 324 milhões de euros, o maior da história do clube segundo a Marktest 74,6% dos portugueses usam internet e 67% fazem-no pelo telemóvel.

Dixit
"A política sempre foi um jogo de máscaras, mesmo que não a devamos reduzir a isso."
Vicente Jorge Silva

A arte da luz
Em física, lúmen é a unidade de medida do fluxo luminoso. Em anatomia, é a cavidade ou canal dentro de um órgão ou estrutura tubular. E agora, em livro, é a recolha das obras de arte que entre 1992 e 2019 Pedro Cabrita Reis fez, utilizando tubos de néon que trabalha como linhas de luz num desenho, como referiu esta semana na apresentação do livro, na Central Tejo. Este livro vem no seguimento da aquisição da coleção Pedro Cabrita Reis em 2015 pela Fundação EDP, e é na realidade um catálogo de 27 anos de trabalhos com luz. A sua capa é precisamente "Central Tejo", a escultura que o artista fez em 2018 e que está colocada em cima do rio, frente ao MAAT. Markus Richter, que escreveu a introdução ao livro, sublinha que Pedro Cabrita Reis "utiliza a luz, em primeira linha, para definir ou criar espaços" e faz a história da forma como a luz aparece e evolui na obra de Cabrita Reis na década de 1990. Richter destaca uma afirmação de Cabrita Reis que enquadra todas estas obras: "Os tubos luminosos estruturam os espaços como um desenho estruturaria um pensamento visual." Na apresentação que fez do livro Pedro Cabrita Reis afirmou aquele que tem sido sempre o ponto de partida do seu trabalho - "Nada é por acaso, tudo é pensado". Ao longo das 480 páginas são mostradas mais de 300 obras, todas devidamente identificadas e descritas, muitas delas pouco conhecidas e surpreendentes, que aqui são partilhadas e que estão expostas em coleções particulares, em empresas ou em museus em Portugal (de Lisboa, Porto, Coimbra e Tavira), mas também internacionalmente em Antuérpia, Londres, Paris, Chicago, Buenos Aires, Basileia, Nova Iorque, Milão ou Hamburgo, entre outras. O livro LUMEN está à venda na loja do MAAT.

O clássico e o contemporâneo
A rentrée nos principais museus e galerias já começou. Comecemos pelo Museu Nacional de Arte Antiga que expõe "A leitura da sina do Menino Jesus", uma pequena pintura que foi a última obra de Josefa de Óbidos a ser conhecida. O quadro foi leiloado na Alemanha em Maio passado e o Estado português não conseguiu comprar a obra, vendida por 220 mil euros a um negociante de arte argentino que a emprestou ao MNAA, para ser exposta durante um mês antes de atravessar o oceano. O museu expõe a peça no hall principal e recorda: "Revisitada em 2015, numa grande exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, Josefa de Ayalla, dita Josefa de Óbidos, tem vindo a revelar-se como um dos casos culturalmente mais interessantes entre as mulheres pintoras do período barroco. A pintura, datada de 1667, mostra a leitura da sina do Menino Jesus através da observação da sua mão por uma mulher cigana durante a estadia da Sagrada Família no Egipto." Passando para um outro registo, o MAAT inaugurou esta semana uma nova série de exposições: a colectiva Playmode, onde os artistas participantes se focaram no "poder de transformação do jogo, integrando-o nas suas obras com propósitos distintos - evasão à realidade, construção e transformação social, subversão ou crítica dos próprios mecanismos de brincadeira e jogo"; e M.A.G.N.E.T. - uma encomenda da Fundação EDP para o Video Room do MAAT, feita à artista egípcia Basin Magdy. O filme foi gravado ao longo de um período de quase dois anos em diferentes locais da Europa, entre os quais se incluem uma cratera vulcânica na ilha grega de Nisyros, um laboratório de robótica em Manchester, o Parque Arqueológico do Vale do Côa e o Dino Parque da Lourinhã, "lugares que, retirados dos seus contextos históricos e geográficos, são apresentados enquanto cenários ficcionais que servem a narrativa. O enredo relata a forma como diversas pessoas e comunidades de todo o mundo recebem a notícia do aumento da gravidade da Terra - uma das quatro forças fundamentais da natureza -, descrevendo uma série de situações e acontecimentos inesperados que têm lugar em diferentes lugares e contextos."

Arco da velha
Em Ovar, um jovem de 22 anos confeccionou um bolo com folhas de canábis para partilhar com amigos, mas a iguaria, deixada numa mesa, desafiou a gulodice de familiares que a devoraram e que acabaram intoxicados com sintomas de tonturas e vómitos.

Música Italo-Americana
O trompetista italiano Enrico Lava e o saxofonista norte-americano Joe Lovano são dois músicos de jazz que se distinguem pela sua capacidade de improvisação. Surge agora o seu primeiro disco em conjunto, uma gravação ao vivo realizada Novembro passado no Auditorium Parco della Musica em Roma - a cidade que dá nome ao álbum, editado pela ECM e disponível no Spotify. Lava e Lovano são acompanhados pelo pianista italiano Giovanni Guidi, o baixista americano Dezron Douglas e o baterista americano Gerard Cleaver. O álbum tem cinco temas, os dois primeiros são composições de Enrico Lava: "Interiors" (do álbum New York Days de 2009) e "Secrets" do álbum homónimo de 1987. Se no primeiro o trabalho de Giovanni Guidi no piano se destaca, no segundo é o diálogo entre o trompete e o sax que se salienta, apoiado pelo baterista Gerard Cleaver. Os outros três temas são de Lovano - "Fort Worth", de 1992, o original "Divine Timing", e uma faixa final, de 18 minutos, que arranca com "Drum Song" de Lovano e depois tem incursões em clássicos como "Spiritual" de John Coltrane e na balada "Over de Rainbow" de Harold Arlen, num medley onde a improvisação corre solta até finalizar com um envolvente solo de Guidi naquela que é uma das mais conhecidas baladas do jazz.

Comidas possíveis
Felizmente vai crescendo em Lisboa um conjunto de restaurantes em locais agradáveis, sem pretensão maior do que a de servir comida bem confeccionada, sem exageros nem de forma nem de preço. Nestes dias mais encalorados experimentei dois onde tudo correu bem. Um deles foi no CCB, o Este-Oeste que tem a sua carta dividida entre comida italiana e sushi de fusão. O sushi é acima da média do que por aí se encontra e na comida italiana destaco a boa qualidade da massa das pizzas - fina, crocante e um muito honesto spaghetti putannesca com a receita original e sem modernices escusadas. O outro é o já antigo, mas recentemente renovado Doca de Santo, em Alcântara, onde uma escolha ampla de saladas e de pratos como caril de gambas à tailandesa (com legumes), o bitoque ou croquetes com arroz de tomate são honestos e de bom preço. Nos dois casos há esplanada, mas também espaços interiores com bom ar condicionado e muito luminosos que nestes dias quentes, à hora de almoço, são melhores ainda que uma esplanada. Nos dois casos não falamos de "fast food", mas de pratos variados, bem confeccionados, de um serviço simpático e diligente, de uma equilibrada mistura entre comensais portugueses e turistas estrangeiros. Numa altura em que se multiplicam novos restaurantes onde por vezes o pretensiosismo é dominante e vão fechando, sem glória, alguns dos clássicos (como a Bica do Sapato), é bom perceber que existe uma categoria intermédia, mas boa, bem localizada e que cumpre o papel básico de um restaurante. Este-Oeste e Doca de Santo são bons sítios para se apreciar o rio enquanto se tem uma muito razoável refeição.

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