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opin | O Financeiro VII 29 de Abril de 2005 às 13:59

É dos carecas que ela gosta mais

Sofia, uma lindíssima mulher de bom gosto, na casa dos trinta, padece de dois vícios terríveis. Dois vícios que, seguindo o timbre de certas Administrações Públicas, geram dissonâncias cognitivas na classe operária de origem Marxista-Leninista ...

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Dois vícios que, seguindo o timbre de certas Administrações Públicas, geram dissonâncias cognitivas na classe operária de origem Marxista-Leninista: é uma consumista compulsiva e não gosta de trabalhar. Essa coisa de se levantar às sete da manhã para ir aturar chefes e subordinados rotineiros não é com ela. Para além da sua beleza e esperteza (cuja possibilidade de coexistência aqui se comprova, mas só até ao penúltimo parágrafo), o que ela precisa é de amigos (ainda que acidentais), comerciantes não muito informados e informatizados, sites como o eBay, cheques e, claro está, cartões de crédito.

Sofia passa grande parte do seu tempo a navegar na Net (utilizando indecifráveis proveniências de e-mail), onde compra toda a panóplia de produtos. Aquilo que começou por ser uma mera curiosidade, transformou-se em paixão no dia em que conseguiu encontrar os únicos objectos de que se tornou inseparável – o seu Swatch Kiki Picasso e um magnífico Lotus Elite de 1957. A paixão deu depois lugar a um florescente negócio de revenda de artigos de luxo, com sede em instalações arrendadas e ocupadas por um imigrante clandestino de grande porte.

Outra parte do seu tempo profissional é passada com os seus amigos angariadores de números de cartões de crédito. Os amigos analógicos e os digitais, como ela gosta de apelidar com humor.

Os primeiros desenvolvem a sua actividade na restauração, tomando nota dos elementos em relevo constantes dos plásticos dourados insuspeitamente entregues no fim da refeição – nome, número e validade. Com eles constituem listas manuscritas, que guardam cuidadosamente no bolso ao lado das gorjetas.

Os segundos, os digitais, são mais sofisticados. Com origem em seitas de cromos dos computadores, aprendem um vasto conjunto de artimanhas para extrair dados pessoais dos utilizadores da Internet – contando, aliás, com a comparticipação destes últimos. Por um lado, criam programas que conseguem ler os dados confidenciais dos internautas, quando estes, por exemplo, ao clicar nas partes mais íntimas das fotografias de sexo que desfolham sofregamente durante as horas de expediente, fazem o download involuntário dos chamados Trojan Horses. Por outro lado, aproveitam-se igualmente dos bem comportados que não hesitam a responder a e-mails que julgam (erradamente!) enviados por entidades insuspeitas como a eBay, o PayPal, ou os seus próprios Bancos, solicitando o preenchimento de dados confidenciais - actividade conhecida por Phishing. As listagens assim obtidas, são de seguida guardadas em ficheiros digitais nos canivetes suíços que se ligam às portas USB dos computadores.

Num caso e noutro, as listagens são recolhidas a troco de um punhado de euros.

Munida dos números mágicos, Sofia entrega-se então à actividade de comprar sem pagar, indicando como morada a do armazém guardado pelo seu capanga. Depois, basta publicitar a existência dos bens assim adquiridos e revendê-los a comerciantes por preços bastante atraentes (ainda assim com margens de quase 100%).

Uma vez entregue a mercadoria, inicia-se a actividade de obtenção de liquidez, através dos pagamentos realizados, aplicando ainda dois expedientes adicionais. Um que consiste em enviar facturas em duplicado, para ver se os fornecedores se enganam e pagam duas vezes. Outro que se baseia na mentira dita aos comerciantes de que o cheque de pagamento foi extraviado, pedindo-lhes que enviem outro, após cancelamento do primeiro. Sofia guarda então o primeiro cheque e deposita o segundo. Passado alguns meses, com a ajuda de problemas (acidentais ou provocados) nos sistemas de informação bancários, o primeiro cheque é então depositado aproveitando o facto de a ordem de cancelamento ter «expirado».

Mas o mundo de Sofia não é só a Internet. Sofia tem uma vida privada. Sofia vai às lojas, como o comum dos mortais. Só que o comum dos mortais não aproveita para dar os golpes que Sofia dá.

O truque que Sofia mais gosta de aplicar é o de «pagar» com recibos. Após comprar roupas ou outros artigos de luxo em lojas caríssimas, mas sem códigos de barras ou sistemas de alarme, dirige-se para casa onde deposita os artigos adquiridos. Dias mais tarde, volta à loja com o recibo e um saco da loja debaixo do casaco. Enche o saco com roupas da loja iguais às que já deixou em casa e pede que lhe seja devolvido o dinheiro ou efectuada a troca por outros produtos. A maior parte das vezes, acresce a este golpe, já de si lucrativo, o facto de o comerciante ainda não ter sido informado que o cheque utilizado para pagamento não tem cobertura!

O outro truque que Sofia adora é o de enganar os lojistas nos trocos. Tudo se processa com aparente inocência. Sofia entra numa loja e paga o jornal (por exemplo) com uma nota de dez. Quando o empregado coloca os nove euros e tal de troco em cima do balcão, Sofia «descobre» então que afinal tem moedas, pedindo que lhe seja devolvida a nota de dez para poder dar um euro (neste preciso momento voltou a ter a nota de dez, enquanto o dinheiro do lojista permanece em cima do balcão). Com a nota de dez já na sua mão e mais um euro – onze euros prontos para entregar ao enganado -, Sofia, ao mesmo tempo que empurra nove euros na direcção do empregado, sugere que este lhe dê antes uma nota de vinte - coisa que ele faz. Contas feitas, e jornal à parte, Sofia fica com uma nota de vinte, depois de um «investimento» de onze euros (os dez euros iniciais e o euro que afinal sempre tinha).

Mas Sofia também tem uma vida sentimental. Ainda há bem pouco tempo viveu um fim de semana inesquecível, com um quarentão, iniciado numa noite de Sexta-feira em conhecido bar de Lisboa. Depois de nem um copo a mais a ter «libertado» para actividades mais divertidas, combinaram encontrar-se no outro dia de manhã para tomar o pequeno almoço numa conhecida pastelaria da Avenida da República. Assim fizeram, e, passado pouco tempo, estavam noutro sítio a assistir ao cuidadoso acto de embrulhar um magnífico colar de diamantes cujo preço quase não cabia na etiqueta! O comerciante aceitou o cheque do cavalheiro, cuidadosamente passado com a Parker Vacumatic de Sofia, ficando combinado o levantamento da jóia – directamente pela senhora -, após boa cobrança do cheque. Aquilo que o álcool não havia conseguido fazer, o colar conseguiu e o fim de semana tornou-se impróprio para cardíacos.

Escusado será dizer que o cheque era careca (e que este é o último parágrafo)!

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