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Sérgio Figueiredo 17 de Março de 2006 às 13:59

E se o BBVA atacar?

Andamos entretidos com as nossas OPA caseiras e perde-se o horizonte. Quem levanta a cabeça vê porém duas coisas. Uma é que não estamos sós. A segunda é que vivemos uma fase diferente dos outros.

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Sonae e BCP não estão a fazer nada de invulgar porque, em toda a Europa, a vaga em curso de fusões e aquisições já soma 1 trilião de euros! Em apenas dois meses deste ano, as concentrações ganharam uma dimensão que não se via desde a bolha tecnológica de 2000.

Mas a nossa onda é diferente. As restantes são transfronteiriças. As nossas ainda desenrolam-se intramuros. As outras estão colocadas ao nível dos governos. As nossas ainda se ficam por escaramuças entre nativos. Rivais que se tomam. Ou amigos que se zangam.

As tentativas de aquisição da PT e do BPI podem ser hostis. Mas, para alívio dos nossos patriotas habituais, ainda ofendem o «interesse nacional». Ainda, ainda, ainda.

Vai deixar de ser assim. Enquanto verdadeiros conflitos diplomáticos estalam entre Madrid e Berlim, Paris e Roma, a malta por cá está entretida com a opereta do «roto para o nu, porque me opas tu?».

Temos tempo para nos contemplar ao espelho. Recordar memórias. Recentes, que provam serem frágeis as bases dos centros de poder. Como se Portugal fosse uma gigantesca aldeia, como se uma OPA fosse uma briga de comadres.

Onde está o «interesse nacional» que uniu os banqueiros nacionais contra Champalimaud, contra Botin? Em nome de que interesse Artur Santos Silva e Jorge Jardim Gonçalves, antes amigos, se tornaram tão hostis? De que lado está agora o interesse nacional?

Contra o Santander, banqueiros mobilizaram ministros e reguladores. Até Sampaio telefonou a Aznar. Todos obviamente patriotas, alguns naturalmente interessados em defender apenas os seus próprios interesses.

Este populismo egoísta foi-se tornando popular. Ganhou adeptos e manifestos. Por quem vão eles agora mobilizar-se? Qual dos patriotas vão defender? Os do BCP? Ou os do BPI. E que pode o poder político fazer?

Dificilmente algo pode fazer. E na realidade nem deve. O BCP decidiu, sozinho, colocar o seu destino no mercado. Terá de assumir as consequências. E o BPI responde na mesma moeda. Em suma, estão ambos entregues a si próprios.

Bem sei que italianos impedem espanhóis de lhes comprar bancos de média dimensão. E espanhóis não deixam alemães ficar com o seu campeão nacional da electricidade. E também sabemos que o circuito da esquizofrenia europeia se fecha, quando italianos se revoltam com franceses ao serem travados à porta da Suez.

Mas também vimos Sócrates e o ministro Pinho consumirem tempo a aliciar os investimentos estrangeiros. Os que há. E os que deveriam haver. E vimos Salgado elogiar a OPA da Sonae por recolocar o nosso mercado de capitais na mira dos grandes fundos de investimento.

Quando se diz que a OPA abriu uma Caixa de Pandora é isso mesmo que se quer dizer – que ninguém sabe o que vai acontecer, que ninguém controla mais a situação.

BCP nas mãos do BBVA? Nada disso. Mas, entre Berlusconi e Villepin, com quem Sócrates quererá ficar parecido?

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