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Sérgio Figueiredo 13 de Dezembro de 2006 às 16:22

E Sócrates afirma-se

No ano passado, neste mesmo espaço, quase no mesmo dia e nas mesmas circunstâncias, o título do editorial do Jornal de Negócios era praticamente igual ao de cima: "E Sócrates afirma-se?" Falta-lhe hoje um ponto de interrogação. Um pequeno pormenor faz tod

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No ano passado, neste mesmo espaço, quase no mesmo dia e nas mesmas circunstâncias, o título do editorial do Jornal de Negócios era praticamente igual ao de cima: "E Sócrates afirma-se?" Falta-lhe hoje um ponto de interrogação. Um pequeno pormenor faz toda a diferença.

A ocasião é propiciada pelos Stock Awards, uma iniciativa deste jornal e da Brisa para distinguir as nossas melhores empresas cotadas - e, assim, dar também um pequeno contributo para promover o mercado de capitais nas necessárias estratégias de crescimento dos grupos económicos nacionais.

E o dia é o único em que, numa mesma sala, se reúnem o primeiro-ministro, o ministro das Finanças, o ministro da Economia, o presidente da API, o governador do banco central, o presidente da CMVM, o presidente da Autoridade da Concorrência, todos os presidentes das entidades reguladoras dos sectores com presença na bolsa e mais de 40 gestores e empresários que lideram empresas cotadas na Euronext.

Os nossos leitores regulares há muito que sabem que não temos o hábito de mobilizar empresários e políticos para aparecerem vestidos de "smoking" e com lacinho ao pescoço. Não temos nada contra as festas. Mas achamos que a situação nacional obriga a convocá-los para o trabalho.

Os Stock Awards não são, afinal, nada mais que um nobre pretexto para, uma vez por ano, unir os poderes políticos e económicos em torno do maior dos objectivos em comum: o progresso do país. Três horas de discussão informal, à porta fechada. Para que ninguém se sinta constrangido. Para que ninguém caia na tentação de falar para as televisões.

Por uma vez, não pode um jornalista estar num local e ser os olhos das pessoas que o lêem. Pode chocar os falsos puristas. Mas, na ordem de prioridades, o Jornal de Negócios assume a sua opção, de colocar o interesse geral da economia acima de princípios de deontologia vazia e ética inconsequente.

Temos fortes suspeitas de que, no dia em que o jornal publicar aquilo que lá foi debatido, acaba-se a informalidade, morre o espírito de trabalho e a cimeira torna-se mais uma das dezenas de conferências que este país realiza por semana.

Portanto, a nossa escolha é simples: entre as notícias e a cimeira, escolhemos a cimeira. E, podem ter a certeza, até porque não somos nós portugueses a inventar isto, em Espanha são frequentes estas sessões de "enforcement" entre Governo e empresários, a cimeira dos Stock Awards é do interesse geral.

Sem violar a regra da confidencialidade, o director deste vosso jornal pode dizer-lhes que o espírito dominante não é o de cada um ir lá "tratar da sua vidinha".

Pelo contrário. Que a maioria das intervenções incide sobre problemas do país - como a qualidade dos recursos humanos. Que não se procura culpados na busca de respostas para nos superarmos naquilo que é de responsabilidade comum - como a afirmação dos nossos produtos na economia global.

Temos em Portugal a irresistível tendência a procurar culpados para todos os males. Pelo segundo ano consecutivo, o Stock Awards colocou Sócrates e os seus ministros diante de agentes económicos com a perfeita noção de que não é hora de andar a olhar para trás, tantos e tamanhos são os problemas que temos pela frente.

E porque é que a interrogação cai de um ano para o outro? Porque há um ano Sócrates impressionou a mesma plateia com a determinação que colocava nas coisas que se propunha fazer. Uma plateia de pé atrás, que não conhecia um primeiro-ministro pintado de fresco e vinha escaldada de outros que geraram a instabilidade política que, essa sim, resultou em atraso económico.

E, também eu, tiro a interrogação porque se algo de inequívoco sai deste encontro é isso mesmo: Sócrates afirma-se junto da elite empresarial deste país. Faz-lhe os favores, dirá o velhaco espírito "tuga". Nada disso! Fala a sua linguagem e age com idêntico pragmatismo. Isto não é tomar partido na luta de classes. É querer governar um país mais desenvolvido. E até hoje ninguém conseguiu inventar um sem empresas prósperas.

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