Francisco Mantero
Francisco Mantero 28 de fevereiro de 2018 às 12:42

Educação em África: uma prioridade também para as empresas

Em África, o desenvolvimento humano, de que a educação é componente central, juntamente com a saúde, permite que as populações possam participar e beneficiar dos processos de crescimento económico.

Na sua recente entrevista ao jornal francês Le Monde (edição de 24 de Janeiro de 2018), o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Maurice Obstfeld, ao perguntarem-lhe como estimular o potencial do crescimento mundial, respondeu: "Em primeiro lugar investindo na educação, e sobretudo na dos mais jovens, que serão os próximos inovadores. Pode-se fazer mais e melhor neste domínio. Os nossos estudos econométricos demonstram que, mesmo nos países mais pobres, os esforços em matéria de educação oferecem um real retorno dos investimentos. Isto é válido também para os Estados Unidos. E isto faz ainda mais sentido quando se procura promover a igualdade de oportunidades."

 

Também para as empresas, seja em que parte do mundo for, a educação, a formação e a qualificação são indispensáveis para fomentar o investimento e a produtividade, tal como para impulsionar o empreendedorismo. Uma escassez de trabalhadores qualificados é um obstáculo ao investimento. E sem investimento não se cria nem riqueza nem emprego. Trata-se portanto de uma séria e perigosa barreira ao desenvolvimento humano e ao crescimento inclusivo.

Ter acesso à educação, à formação e à qualificação é ainda um importante factor de liberdade e contribui para uma melhor cidadania.

 

África e os africanos não são obviamente uma excepção a estes princípios e valores. Na verdade também em África o desenvolvimento humano, de que a educação é componente central, juntamente com a saúde, permite que as populações possam participar e beneficiar dos processos de crescimento económico. Como se afirma no documento Perspectivas Económicas em África 2017 (OCDE, Bando Africano de Desenvolvimento e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), "as pessoas mais instruídas e saudáveis tendem a ter melhores salários", documento no qual também se salienta que "a falta de emprego é o desafio mais premente para a população jovem".

 

No continente africano, em geral um jovem tem três vezes mais probabilidades de estar desempregado do que um adulto (OIT-Organização Internacional do Trabalho, 2015). E o Banco Africano de Desenvolvimento estima que metade da população jovem está desempregada ou inactiva, e que 35 % estão em empregos vulneráveis (BAD, 2016). Acresce que a taxa de desemprego jovem aumenta com o nível de escolaridade, indicando que os sistemas de ensino em África não estão a preparar as pessoas para o mercado de trabalho. Os jovens que concluíram o ensino superior em África têm duas ou três vezes mais probabilidade de estarem desempregados do que aqueles que têm o ensino primário ou menos (OIT, 2015), tudo conforme consta nas citadas Perspectivas Económicas em África 2017.

 

Na verdade, a educação não é uma panaceia. O investimento na educação para poder cumprir todas as suas potencialidades tem que ir de mão dada com a criação de processos de orientação para a profissão e para a carreira ao longo de toda a escolaridade e da vida activa. O desenvolvimento de competências de gestão de carreira, o auto-conhecimento de interesses e motivações, a compreensão de como esses interesses se relacionam com profissões e carreiras, são "soft skills" essenciais para que o investimento na educação atinja o seu potencial mais elevado em África. As empresas têm neste processo um papel essencial, assinalando as competências e qualificações de que irão precisar, e agindo em coordenação com o sistema educativo na oferta de possibilidades de formação em contexto prático.

 

Um bom exemplo de sucesso neste campo é o Ruanda. No rescaldo do genocídio de 1994 e no processo de reconstrução que se seguiu, o país iniciou um forte investimento na educação que se tem traduzido ao longo de mais de duas décadas no forte aumento da taxa de literacia e num crescimento económico próximo dos 8%/ano. Em 2014, o governo ruandês contratou a empresa norte-americana Kuder para desenvolver no país um "pipeline" de talentos, um sistema de orientação profissional ao longo da vida, cobrindo todo o sistema educativo e os adultos na vida activa, para ajudar a população a navegar as escolhas e opções de formação, conciliando interesses pessoais com necessidades do tecido económico. Com este projecto, o governo do Ruanda está a criar condições para que a sua população procure qualificações em linha com as suas capacidades e interesses e ao mesmo tempo garantam empregabilidade e apoiem o crescimento inclusivo da economia, uma vez que pretende multiplicar por dez o PIB per capita do país até 2050.

 

Trata-se assim de um investimento virtuoso. Como escreveu o Presidente Barack Obama em 24 de Julho de 2013 "if you think education is expensive wait until you see how much ignorance will cost in the 21st century", em tradução livre: se acham que a educação é cara, esperem até ver o custo da ignorância no século XXI!

 

Consciente desta realidade e do seu impacto em África, o Presidente Macron anunciou no passado dia 2 de Fevereiro em Dakar, Senegal, no seu notável discurso sobre a educação, que a França aumentaria a sua contribuição para a Global Partnership for Education (GPE) de 17 milhões de euros para 200 milhões, ou seja, cerca de 12 vezes mais. Na mesma ocasião a Presidente do GPE, Julia Gillard, ex-primeira-ministra da Austrália, anunciou que os países doadores garantiram 2,3 mil milhões de USD para financiamento do GPE e que os países em desenvolvimento se comprometeram a aumentar o seu investimento público em educação para 110 mil milhões de dólares no período de 2018 a 2020. Saliente-se porém o que afirmou o economista-chefe do Banco Mundial (BM) para África, Alberto Zeufack, durante a apresentação do relatório do BM "Africa’s Pulse": "Temos de manter o ritmo de investimento nas competências, mas temos de melhorar a qualidade da despesa na educação."

 

Conhece-se a debilidade financeira da Cooperação Portuguesa, a sua grande dependência da cooperação delegada da União Europeia e os sérios constrangimentos operacionais, mas seria importante que pudesse fazer um esforço adicional, ainda que modesto, para promover a educação em África, também em diálogo trilateral, estruturado, aberto e concreto, com o sector privado e as ONGD, nomeadamente no enquadramento dos mecanismos comunitários dos trust funds e dos fundos blending.

 

Nota: o autor escreve a título individual

 

Presidente do Conselho Estratégico para a Cooperação, Desenvolvimento da Lusofonia Económica da CIP

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