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Paulo Morais 16 de Maio de 2011 às 11:51

Efeito dominó

Se dúvidas existissem de que a economia mundial ainda não saiu de todo da recessão

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Se dúvidas existissem de que a economia mundial ainda não saiu de todo da recessão, as duras medidas de austeridade aplicadas em muitos países e a reacção pouco entusiasta por parte dos cidadãos a essas medidas, são um notório indício de que o caminho para a total recuperação está a ser complexo e nada Pacífico.

Portugal, Espanha, Grécia, Reino Unido, Irlanda e Estados Unidos têm sido as principais vítimas da recessão. Muitos dos seus actuais problemas fiscais estão directamente relacionados com um excesso de endividamento e de investimento no mercado imobiliário que teve como consequência o resgate do sector financeiro.

Porém, o pânico resultante da perda de confiança tanto ao nível do sector empresarial como dos consumidores alargou-se a muitos outros sectores - em especial os que dependem de crédito para consumo de bens de valor elevado, como é o caso dos automóveis e dos bens de consumo duradouros. Além disso, os bancos estrangeiros, incluindo os franceses e alemães incorreram numa exposição particularmente elevada em relação à dívida pública e privada em países com dificuldades como a Grécia e Portugal.

Mas isto não termina aqui. A queda acentuada da procura num país tem um impacto imediato sobre os países que dependem fortemente da exportação para esse mercado. Enquanto que a economia alemã parece estar a recuperar mais rapidamente do que muitos dos seus congéneres europeus, a queda acentuada na procura global de produtos alemães, especialmente a proveniente dos Estados Unidos da América e da China, e o aumento da volatilidade dos mercados financeiros resultantes dos problemas acima mencionados da dívida pública, nos países da União Europeia, ameaçam desaproveitar a recuperação da Alemanha.

Também do outro lado do Atlântico o destino da economia mexicana está tão intrinsecamente ligado ao comportamento da economia dos EUA que as projecções sobre a sua recuperação foram revistas em baixa pela quarta vez este ano.

O último Barómetro de Práticas de Pagamento desenvolvido pelo Grupo Atradius, apresentado em Portugal no passado verão pela Crédito y Caución, sobre a experiência de cerca de 4.000 empresas em 22 países em matéria de cobrança a nível nacional e internacional, concluiu que, mesmo os países que evitaram a recessão, como a China e a Polónia, não têm sido capazes de se livrar do impacto da recessão mundial. Tal como na maioria dos países, o comércio internacional destes países foi fortemente afectado e as exportações sofreram o impacto da recessão dos países atingidos, originando na melhor das hipóteses atrasos nos pagamentos e, em muitos outros casos, créditos incobráveis. Embora o prazo médio de cobrança não seja o único indicador para aferir a saúde das contas de uma empresa, o Barómetro de Práticas de Pagamento concluiu que aproximadamente 19% das empresas entrevistadas registaram um aumento a esse nível, sendo Itália o país com o período médio mais elevado.

A confirmação do efeito dominó que os atrasos de pagamento têm nas empresas que se situam a montante da cadeia de abastecimento é, possivelmente, o dado mais relevante deste estudo. Muitos dos entrevistados confirmam atrasos nos pagamentos aos fornecedores, como resultado do seu próprio atraso nas cobranças a clientes. Mais de metade dos inquiridos no Barómetro de Práticas de Pagamento mencionaram ter registado atrasos nos pagamentos sem acordo prévio, enquanto uma percentagem similar afirmou que recebeu pedidos de prorrogação dos prazos de pagamento.

Embora não seja surpreendente, o estudo revelou ainda um aumento significativo no uso de técnicas de gestão de crédito por parte de muitas empresas, especialmente recorrendo a uma comunicação sistemática com os clientes para garantir os pagamentos nos prazos acordados e à comprovação regular da solvência dos clientes.

Na verdade, das conclusões gerais do Barómetro de Práticas de Pagamento afere-se claramente que apesar de não existir nenhuma ferramenta de gestão de crédito capaz de garantir a eliminação do risco de crédito, o uso inteligente e estratégico de uma combinação das medidas mencionadas, incluindo a protecção conferida pelo seguro de crédito, pode melhorar substancialmente as possibilidades de operar com sucesso e de forma rentável. E se bem que os fornecedores devem salvaguardar-se sempre na hora de propor prazos de crédito mais ou menos dilatados, estes continuam a ser um elemento essencial do comércio nacional e internacional.


Director da Crédito y Caución para Portugal e Brasil
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