Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 05 de março de 2018 às 19:40

Em defesa de um mundo global

Escolham-se os critérios que se escolherem para se avaliar o nosso nível de vida, da saúde à educação, da alimentação à cultura, do ambiente à democracia, da justiça ao emprego, as conclusões são as mesmas e notórias: a nível global estamos a viver melhor do que nunca.

Uma pessoa lê e ouve notícias sobre o mundo e fica com a convicção de que ele está cada vez pior, de que se vive pior, de que há menos progresso, de que há menos esperança e menos oportunidades, de que há menores possibilidades de subir na vida, de que estamos, pela primeira vez, a regredir, que teremos as novas gerações a viver pior do que as anteriores. A globalização falhou, o capitalismo falhou, é preciso uma nova ordem, novos valores.

 

Tudo isto seria impressionante se fosse verdade, mas não é. 

 

Escolham-se os critérios que se escolherem para se avaliar o nosso nível de vida, da saúde à educação, da alimentação à cultura, do ambiente à democracia, da justiça ao emprego, as conclusões são as mesmas e notórias: a nível global estamos a viver melhor do que nunca. Nunca tanta gente saiu tão rápido da pobreza, nunca tanta gente teve tantas oportunidades de subir na vida, nunca tanta gente pôde aspirar a uma vida melhor. Todas estas melhorias desafiam uma lógica que muitos consideravam inquebrantável: a de que para alguém ganhar, outro teria de perder. Não é assim, e os dados comprovam-no de forma avassaladora. Podem dar uma vista de olhos no "Our World in Data" (https://ourworldindata.org/), uma publicação online da Universidade de Oxford, e confirmar tudo o que aqui digo.

 

Claro que este discurso, que é factual, assente em dados, estatísticas, cola mal com o tom pessimista dos dias de hoje e é por isso ignorado ou até confundido com frivolidade ou ingenuidade. O pessimismo face ao mundo global vende muito. Vende livros, vende jornais, promove prémios, granjeia admiração, movimenta paixões, é muito mais fotogénico do que qualquer relato optimista fundamentado em dados concretos. Mas nem por isso o pessimismo face ao mundo global é factualmente demonstrável, sendo por isso uma aproximação errada à realidade.

 

Vem isto a propósito do livro de Steven Pinker, "Enlightenment Now", um livro muito recomendado por Bill Gates e que, inspirado em Kant e Hayek, faz um apelo aos valores do Iluminismo para compreender e apreciar as conquistas do mundo global: razão, humanismo e ciência.

 

Tal como o "Our World in Data", que já citei em artigos anteriores, Pinker demonstra, prova, com dezenas de dados e gráficos, que a humanidade está hoje bem melhor. Mas o livro vai mais longe do que essa demonstração, e reconhece o desafio político de lutar contra aqueles que utilizam o pessimismo, fundado em coisa nenhuma, para alimentar os verdadeiros inimigos do progresso, como sejam o populismo, o autoritarismo ou o nacionalismo.

 

É um desafio político, de facto. São hoje poucos os políticos que se afirmam a favor de um mundo global ou que estão dispostos a pagar o preço de não partilhar do pessimismo que oferece a "gravitas" que tantos buscam. São hoje poucos os discursos positivos sobre a globalização ou os argumentários límpidos, sem adversativas, em defesa de uma sociedade aberta e com liberdades de circulação. Ao mesmo tempo, o pessimismo vai dominando, fornecendo o terreno fértil para a sentimentalização da política e, consequentemente, para o populismo que nos atormenta.

 

Diz Pinker que o único caminho legítimo e compatível com o progresso é o caminho da razão, da ciência. O Iluminismo, de novo. Desmontar, uma a uma, as mentiras. Provar, um por um, os factos. Insistir, uma e outra vez, na demonstração. Exigir, todos os dias, que se provem os factos alegados. Afinal, acredita Pinker, a realidade tem demasiada força e até os fanáticos serão forçados a desistir de um discurso sem sustentação.

 

As ideias de Pinker são animadoras e fornecem pistas interessantes para os que, como eu, não tencionam desistir de se afirmar a favor de um mundo global e em liberdade.

 

Advogado

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mais votado Anónimo 06.03.2018

Em todas as economias desenvolvidas há salários que têm por base talento e têm por objectivo a criação de valor. Esses salários têm procura de mercado e atraem diversas combinações de capital e recursos naturais de modo a gerar produção. Há também, salários que tendo ou não talento por base, não criam qualquer valor. Esses salários não têm procura de mercado e são subsidiados por contribuintes e consumidores. No universo do Estado, e em especial em arranjos político-legais como o instituído em Portugal ou Grécia, esses salários subsidiados, sem procura e que em vez de criarem valor se limitam a extraí-lo, tendem a ser muito frequentes e eternamente protegidos. São efectivamente blindados à prova de mercado ou avanço tecnológico. A crise portuguesa e grega foi tão somente o agudizar desta triste realidade levada ao extremo. Pior só na Coreia do Norte da década de 1990, votada à fome, e na Venezuela madurista.

comentários mais recentes
O seu maior contributo : prostituir a Família 06.03.2018

Mais um !
Mais um engano da Natureza.
No fundo, lamento estes seres, q andam a contribuir para a decadência da sociedade e para a prostituição da entidade Família.
Porém, como é moda o "politicamente correcto", é ver os grunhos de todos os quadrantes e ser compreensivos com estas criaturas.

Anónimo 06.03.2018

O Renzi previa fazer uma reforma séria da administração pública que incluía modernizar e liberalizar o mercado laboral e os dos restantes factores produtivos, à imagem e semelhança dos nórdicos. O anarco-sindicalismo, que é transversal à classe média de todo o sul da Europa, ficou logo de pé atrás e como tem poucos escrúpulos na hora de meter a mão no dinheiro dos outros, sejam eles contribuintes ou consumidores, deu em debandar a passo largo para a esquerda e para a direita, pouco se importando com os extremismos de um ou do outro lado.

Anónimo 06.03.2018

Em todas as economias desenvolvidas há salários que têm por base talento e têm por objectivo a criação de valor. Esses salários têm procura de mercado e atraem diversas combinações de capital e recursos naturais de modo a gerar produção. Há também, salários que tendo ou não talento por base, não criam qualquer valor. Esses salários não têm procura de mercado e são subsidiados por contribuintes e consumidores. No universo do Estado, e em especial em arranjos político-legais como o instituído em Portugal ou Grécia, esses salários subsidiados, sem procura e que em vez de criarem valor se limitam a extraí-lo, tendem a ser muito frequentes e eternamente protegidos. São efectivamente blindados à prova de mercado ou avanço tecnológico. A crise portuguesa e grega foi tão somente o agudizar desta triste realidade levada ao extremo. Pior só na Coreia do Norte da década de 1990, votada à fome, e na Venezuela madurista.

escravo da democracia e da ciganada 06.03.2018

isto esta melhor é pra ciganada, vigaristas,... e ppl dos bairros sociais com casa a custa dos contribuintes, em lisboa ha 90.000 e porti ha 95.000 de xulecos em bairros sociais que passam dias a brincar com telemovel e idas a bola

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