Álvaro Nascimento
Álvaro Nascimento 05 de março de 2018 às 19:56

Empresas: "Estados dentro do Estado" 

Fazer em Portugal o Silicon Valley da Europa exigirá muito mais do que a Web Summit… e num registo a que, possivelmente, a esquerda não está habituada!

A FRASE...

 

"Há um objectivo de criar um incentivo para que as empresas recorram menos a esse tipo de contratação [a prazo], o que possa significar um agravamento das condições das empresas que recorrem de forma excessiva aos contratos a termo certo."

José Vieira da Silva, Público, 27 de Fevereiro de 2018  

 

A ANÁLISE...

 

Na formulação económica clássica da empresa, há uma questão central que permanece sem resposta: "É o capital que contrata o trabalho, ou o trabalho que contrata o capital?" O algoritmo de optimização - que muitos se recordarão como orientado para a "maximização do lucro" - não estabelece nenhuma prioridade quanto ao factor produtivo que deve ser privilegiado. Pelo contrário, considera que ambos os factores são remunerados a preços de mercado. E, num mundo concorrencialmente perfeito, o lucro [económico] é zero.

 

Este regresso às origens serve para ilustrar como, não raras vezes, a opinião pública se deixa embalar no discurso politicamente correcto de antagonizar "trabalho" e "capital", colocando a empresa em confronto com os trabalhadores e esquecendo que ela mesma é uma organização social, cumulativa de conhecimento, que tanto depende do trabalho - e dos trabalhadores - como do capital - e dos investidores que o financiam.

 

Contrariamente ao que quer fazer crer o discurso dominante da esquerda, na empresa moderna a dicotomia não se esgota entre capital e trabalho. Não raras vezes é mesmo entre os trabalhadores e, também, entre estes e os clientes. Ainda recentemente, presenciei um episódio de repartição entre trabalhadores e clientes no aeroporto de Lisboa, num dos usuais atrasos da "ponte aérea": hospedeiras no regresso a casa que passaram à frente de todos os clientes com o argumento de "sabe há quantas horas estou a trabalhar?"

 

Não é que nas empresas não existam problemas para resolver na repartição de valor e que estas o façam sempre bem. Mas antes de repartir é necessário criar! Os gestores, chefes destes "pequenos estados" oferecem soluções que dependem do contexto, respostas endógenas condicionadas pelos recursos disponíveis. O país tem a estrutura industrial e os modelos de negócio que tem, porque os mesmos são incentivados pela nossa "arquitectura" social e político-institucional. E, a talho de foice para rematar, fazer em Portugal o Silicon Valley da Europa exigirá muito mais do que a Web Summit… e num registo a que, possivelmente, a esquerda não está habituada!

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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