Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 08 de março de 2018 às 21:47

Enfrentar o futuro

Os robôs ou os algoritmos, como as máquinas na Revolução Industrial ou noutras revoluções tecnológicas, não deverão empurrar os humanos para fora do mercado de trabalho. As funções dos humanos podem alterar-se.

As expressões: robotização, digitalização, inteligência artificial, algoritmo, automóveis automáticos,… parecem tomar cada vez mais espaço nas preocupações dos economistas, acentuando as suas potencialidades disruptoras. É indiscutível que as novas tecnologias ou maior difusão de tecnologias existentes colocam desafios e são passíveis de reconfigurar processos produtivos e as relações económicas. Na medida em que todas as alterações de paradigma produtivo geraram ganhadores e perdedores, justifica-se pensar em mecanismos para mitigar as perdas, fazendo com que sejam limitadas em dimensão e/ou em números de pessoas afetadas. Uma das alternativas consideradas para minimizar os efeitos das alterações no mercado de trabalho introduzidas por estas novas tecnologias ou sua disseminação é o Rendimento Básico Incondicional (RBI). Garantir um rendimento básico uniforme a todos pode entender-se quando o mercado de trabalho se fecha para largas camadas da população ativa.

 

Tão importante como assegurar um rendimento mínimo condigno será pensar em modelos inclusivos: como reconverter capacidades de forma a permitir a absorção destes trabalhadores, adequar a formação existente às necessidades do mercado de trabalho - oferecer formação suficientemente flexível de modo que as capacidades de cada trabalhador sejam facilmente adaptáveis a novos desafios e/ou ter sistemas automáticos de reciclagem de formação de profissionais. A força de trabalho terá de ser mais polivalente, adaptável, flexível e, por outro lado, tem de dispor de formação contínua potenciadora de reciclagem de valências.

 

Os robôs ou os algoritmos, como as máquinas na Revolução Industrial ou noutras revoluções tecnológicas, não deverão empurrar os humanos para fora do mercado de trabalho. As funções dos humanos podem alterar-se, e no médio prazo, durante uma fase de transição entre modelos ou paradigmas tecnológicos, pode suceder que uma faixa importante da população não encontre emprego. Isso foi verdade no Reino Unido quando se transitou de um modelo industrial tradicional para o atual modelo de serviços. Ainda se verifica algum desajuste entre competências procuradas e oferecidas, por exemplo, em Portugal. Porém, tal não significa que vastas faixas da população vão ficar sempre desempregadas. Além da preocupação com a garantia de existência de um posto de trabalho, releva a discussão do tipo de emprego e da possibilidade de escolha. A revista The Economist referia num artigo recente a possibilidade que as empresas teriam de monitorizar a produtividade individual dos seus funcionários, em que alguns estariam disponíveis para trabalhar mais ganhando mais enquanto outros estariam dispostos a sair da empresa, empregando-se onde poderão ser menos produtivos e receber menos. O importante é a manutenção da oportunidade de escolha do modelo em que se quer inserir profissionalmente.

 

Numa nota final de otimismo sobre a robotização e a digitalização: para sociedades mais envelhecidas com forte contração da força de trabalho, a redução da utilização de mão de obra humana poderá ser um mitigante para os desafios do envelhecimento no progresso das sociedades. As tarefas mais produtivas e inovadoras poderão ser dominadas por humanos, nas quais oferecerão mais valor acrescentado, enquanto tarefas mais rotineiras serão desempenhadas por robôs. Estes serão complementares e não concorrentes dos humanos no mercado de trabalho.

 

Economista 

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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