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Mário Negreiros 09 de Agosto de 2005 às 13:59

Engolir Lula

Na semana passada, o presidente brasileiro, Lula da Silva, voltou à sua Garanhuns natal. Terá ido na esperança de que a terra que o viu nascer lhe dê força para enfrentar o negrume do que resta de um mandato que se prometia moralizador e que se afunda em

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Ou, mais pragmaticamente, terá escolhido Garanhuns para anunciar a disposição de se candidatar à reeleição por saber que lá os aplausos são garantidos. E em que termos o fez? «Vão ter que me engolir», eis como Lula ameaçou (a palavra é essa) ser candidato a mais um mandato presidencial.

A cena lembra outra, já lá se vão 13 anos, protagonizada por outro presidente do mesmo Brasil. Chamava-se Fernando Collor e, com o próprio mandato ameaçado por denúncias de corrupção que - ao contrário do que, pelo menos por enquanto, acontece com Lula - o atingiam pessoalmente, voltou à sua Alagoas natal para anunciar ao mundo que tinha nascido com «aquilo roxo» - coisa que, segundo parecia acreditar, seria marca garantida de coragem.

Coragem para quê? Para «os» enfrentar, a «eles», esses sujeitos indeterminados contra quem Collor ostentou «aquilo» e que são rigorosamente os mesmos que, agora, terão (ou não) que «engolir» Lula da Silva. Os mesmos, sim, porque podem ser quaisquer uns, os que estiverem mais à mão, os «suspeitos de sempre», os inimigos do povo.

«Não me deixem só», apelava dramático Fernando Collor de Mello ao povo, esse sujeito que, sendo colectivo, acaba por ser um tanto abstracto e tão indeterminado quanto «eles», os seus inimigos. E é assim que se estabelecem as duas identidades - uma abstracção (o povo) em oposição à outra (»eles»). E tanto mais «eles» serão necessários para a afirmação da identidade do povo quanto mais frágeis forem os vínculos que o (não) unam. A afirmação contra é a mais fácil (e perigosa)  - seja ela contra os judeus, contra os palestinianos, contra os americanos ou, mais genericamente, contra «eles». Mas é também a mais frágil das afirmações de identidade, a que se faz em oposição, e os mais efémeros vínculos, os que se forjam contra. Collor que o diga.

Quando pretendem unir o povo em torno de si e contra «eles», tanto Collor quanto Lula buscam o apoio dos mais frágeis, daqueles que Collor chamava de «descamisados», dos que estão no limiar do lupenzinato. Há muitos deles no Brasil mas, também lá e desde a Revolução Francesa, nada se faz sem a classe média, que, mais do que pouco sensível a esse tipo de discurso, é-lhe refractária. O Lula do «vão ter que me engolir», revelado na semana passada em Garanhuns, é o avesso do «Lulinha paz e amor» que ganhou as presidenciais de 2002. E o Lula de 2002 era simpático.

PS: Também na semana passada, o ex-ministro da Casa Civil e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, José Dirceu, pediu desculpas públicas ao ex-secretário do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Jorge, por o ter pré-julgado (e condenado, evidentemente). Eduardo Jorge, que há 5 anos foi moralmente linchado pelo PT, não aceitou as desculpas, que considerou «inoportunas» e que disse deixarem a impressão de que Dirceu pretende «proteger-se das suas culpas atrás da minha inocência». Mas que deu gozo, deu.

PPS: O povo é o maior inimigo do povo. Pode-se, sim, pensar nos carros estacionados em cima dos passeios para corroborar a afirmação acima.

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