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Ensinar os homens a chorar

Chorar faz bem a tudo, mas os homens não choram. A minha proposta é que no dia da Mulher comecem a aprender com elas.

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Faço parte das mulheres que admite ter chorado no local de trabalho, 41% segundo uma sondagem feita há já alguns anos pela JWT. As lágrimas saltaram-me por fúria a um chefe ou a um/a colega, por raiva contra mim mesma a seguir a ter posto a pata na poça mas, sobretudo, perante a injustiça. Também eu, como as norte-americanas inquiridas, tive vergonha, esforcei-me por esconder a explosão e, salvo honrosas exceções, fui sempre confrontada por homens desconcertados.

 

Vendo bem, não admira que a maioria não soubesse o que fazer, já que só 9% dos inquiridos masculinos confessaram lágrimas durante o horário de expediente, e educados como são a esconder fraquezas como estas, talvez há muito que não chorassem em lugar nenhum.

 

O que é objetivamente uma coisa muito estúpida, porque as lágrimas emocionais (para distinguir das que lubrificam os olhos e daquelas causadas, por exemplo, pela cebola) são um absoluto exclusivo da espécie humana, um topo de gama no equipamento básico com que vimos munidos.

 

A explicação do TED-Ed para a sua existência é simples de entender: "Quando alguém está muito triste ou muito feliz, o corpo perceciona uma falta de controlo - o que pode ser perigoso. E é aí que as lágrimas emocionais disparam como forma de estabilizar o humor o mais rapidamente possível, acompanhadas de outras reações físicas como o aumento do batimento cardíaco e uma respiração mais lenta."

 

Cada uma destas "drogas" sofisticadas contém  hormonas de stress, que são assim expelidas do organismo onde provocavam aquela sensação de implosão eminente, mas também endorfinas, substâncias analgésicas que ajudam a recuperar o equilíbrio. Por outras palavras, sob a lupa do microscópio estava aquilo que conhecemos por experiência: o choro traz consigo uma sensação de alívio e calma sentida, dizem as investigações, sobretudo a partir de 20 minutos depois, num crescendo até aos 90 minutos. 

 

As lágrimas são também uma forma de pedir ajuda, ainda por cima de forma silenciosa (para não atrair predadores) e com a possibilidade de serem dirigidas a um alvo específico (por exemplo, a mãe), servindo ainda de cola social quando uma comunidade se reúne para chorar junta por um mesmo motivo.

 

Mas se há um homem que não tem medo das lágrimas é o professor Ad Vingerhoets, da universidade holandesa de Tilburg, considerado o maior especialista no assunto, nomeadamente nas diferenças entre o choro de homens e mulheres. E é ele que garante que: "Nas economias ocidentais, as mulheres choram mais do que os homens e muito mais do que as mulheres de sociedade onde as mulheres têm menos direitos."

 

Ao contrário do que muitos pensam, mulheres incluídas, chorar no trabalho ou em casa é um passo à frente, e não atrás nas conquistas da humanidade.

 

Aliás, Tom Lutz, da universidade da Califórnia, garante que os olhos secos masculinos são coisa só "dos finais do século XIX, altura em que os trabalhadores industriais foram desencorajados de demonstrar emoções, porque interferiam com a produtividade". E contrapõe com mil exemplos de heróis da História que choram à vista desarmada e não foram vistos nem como "bebés", nem como "meninas" por causa disso.

 

Ah, mas chorar a morte de alguém é um motivo válido, dirão os homens que conseguiram chegar a este parágrafo. Vingerhoets responde com uma lucidez que dá gosto: "Não são os acontecimentos em si que provocam o choro, mas a forma como nós os sentimos." Nisto de lágrimas não há certas e erradas, só a certeza laboratorial do especialista holandês: quando choramos e respondemos às lágrimas dos outros com acolhimento e conforto, somos melhores pessoas. Mil razões para hoje, Dia da Mulher, aprender a chorar como elas.

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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