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Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 18 de Abril de 2012 às 23:30

Equívocos (des)feitos

Era suposto os mercados saberem o que era a união monetária europeia, que havia a linha vermelha "no bailout" que impedia as periferias de se transformarem em novos länders, com rede certa em Berlim. Mas com tamanha ilusão de dinheiro fácil, montada em engenharias financeiras de hordas de arquitectos com licença greenspaniana, não houve nem tempo nem incentivo para queimar pestanas a ler Tratados.

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Era suposto os mercados saberem o que era a união monetária europeia, que havia a linha vermelha do "no bailout" que impedia as periferias de se transformarem em novos länders, com rede certa em Berlim. Mas com tamanha ilusão de dinheiro fácil, montada em engenharias financeiras de hordas de arquitectos com licença greenspaniana, não houve nem tempo nem incentivo para queimar pestanas a ler Tratados.

Era também suposto governos terem gerido contas públicas com parcimónia. Mas, com eleições sempre à porta, crédito barato e tempos de vacas que nunca chegaram a ser propriamente gordas, a tentação - e a ocasião - foi grande demais para fazer menos de polícia e mais de "ladrão". Parte da crise do euro decorre, pois, de equívocos amontoados ao longo de mais de uma década.

Talvez os mercados ainda não saibam ao certo o que é Portugal, nem Espanha, nem até a Grécia. Mas não têm mais dúvidas de que não ficam na margem do Reno. Com o Tratado Orçamental, tão pouco há garantias de que as finanças públicas serão geridas com peso, conta e medida, mas ergueram-se constrangimentos ao disparate.

Desfeitos alguns mal-entendidos ter-se-ão, contudo, gerado outros tantos que podem agravar o problema, quando pretendem ser parte da solução.

É preciso ter cuidado com a política de crescimento que por cá se pede, e bem, à Europa. Não será pura coincidência que os quatro países que estão em maiores apuros sejam os velhos colegas do Grupo da Coesão – destinatários de um fundo criado na contagem decrescente para o euro reservado a projectos de infra-estruturas de transporte e ambiente, que acabou por criar o contexto propício a mais dívida pública sem garantia de retorno adequado e a parcerias com privados, nalguns casos ruinosas.

E é preciso também ter cuidado com o que se pede ao BCE. Que, não podendo financiar directamente Estados, está a comprar dívida pública no mercado secundário e a emprestar a preço de saldo aos bancos para que estes possam (também) financiar os seus países e engordar margens (mesmo que seja para abater perdas), num jogo-do-faz-de-conta que tem levado muito alemão a perder a cabeça e a perder-se o fio ao que o BCE faz – e, sobretudo, ao que está disposto a fazer.

Nem euro nem mercado único sobrevirão se os investidores continuarem a cobrar 5% ou 6% ao Sul quando emprestam à Alemanha a custo zero. É preciso alguma forma de mutualização de dívida que garanta maior equidade no acesso ao financiamento. Mas deixe-se o BCE o mais possível fora desse negócio.

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