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Erro humano

Por esta altura os comboios já deviam todos ser conduzidos por robôs. As condições são ideais. Os comboios rolam sobre carris, o que significa que um dos parâmetros é fixo e o que resta por gerir é bastante básico.

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Tinha pensado escrever sobre as estátuas da Assembleia da República. Mais propriamente as da Sala de Sessões que representam a Constituição, a Diplomacia, a Lei, a Jurisprudência, a Justiça e a Eloquência. Poucos o saberão, mas apesar dos imponentes nomes, são de gesso. Colocadas assim para a inauguração deviam ter sido passadas a mármore só que durante um século parece não ter havido dinheiro e sobretudo interesse para o fazer. 


Estas estátuas engessadas são o retrato do país. Do provisório que passa a definitivo. Do desprezo pelas coisas bem feitas. Do desinteresse geral por tudo que não seja conjuntural e mundano. São também o sintoma da desvalorização do parlamento. Não só pelo povo e seu crescente desdém pela política e pelos políticos, mas pelos próprios, deputados, partidos e demais agentes do sistema democrático. O excesso de formalismo, de pompa e circunstância, tem afinal pés de gesso.

O problema é que escrever sobre estátuas dá para um livro, mas não para 4 mil carateres. Pensei então que podia dedicar-me à ministra que pensa ser mais esperta do que todos os outros. Recorde-se. A comissão de inquérito sobre os Swaps foi criada para entalar o PS e o governo anterior. Só que Maria Luís Albuquerque teve a tentação de fazer baixa política. Deu-se mal. A partir de uma primeira declaração claramente mentirosa tem passado o tempo a tentar emendar a mão com jogos de linguagem. O que não existiu passou a escasso. O que nunca foi comunicado afinal parece que foi, mas insuficiente. Trocadilhos típicos de quem é apanhado numa falsidade.

É claro que o governo não vai deixar cair a ministra das Finanças, como devia. Saído de uma crise infantil, não se pode dar ao luxo de ter outra em tão curto prazo. O dano está contudo feito. Quando todos pensamos que o governo bateu no fundo ele consegue ir ainda mais fundo. Será talvez, como diz Sócrates, porque só sabe escavar.

Estas trapalhadas são tão pueris que, também aqui, vai sendo difícil preencher os 4 mil carateres. Na verdade não há assunto, só inépcia e isso diz-se numa frase.

É assim que dedico as linhas que sobram a um daqueles temas que realmente me motivam, embora saiba que têm pouca audiência.

Quando todos pensamos que o governo bateu no fundo ele consegue ir ainda mais fundo.  

Dois descarrilamentos recentes, em Espanha e na Suíça, que provocaram dezenas de mortos, tiveram origem em erro humano. Sucede com bastante frequência e é absolutamente injustificável. Por esta altura os comboios já deviam todos ser conduzidos por robôs. As condições são ideais. Os comboios rolam sobre carris, o que significa que um dos parâmetros é fixo e o que resta por gerir é bastante básico. Velocidade, circulação e paragens são predefinidos. Mesmo os imponderáveis, por exemplo um obstáculo na via, podem facilmente ser evitados através de sensores colocados ao longo da linha ou com câmaras vídeo que comuniquem com o robô maquinista. Este não comete erros.

Já existem muitos comboios sem condutor humano. Sobretudo nos metropolitanos e nos monocarris usando sistemas Maglev ou outros similares. A linha Victoria do metro de Londres, inaugurada em 1967, foi o primeiro percurso a ser conduzido por máquinas inteligentes. Por cá Oeiras tem um, o SATU, Sistema de Transportes Automáticos. Mas a ferrovia, convencional e de alta velocidade, permanece dependente do fator humano e daí tantos desastres perfeitamente evitáveis. Em Espanha, ao que parece, o maquinista nem sabia em que ponto do percurso se encontrava. O robô saberia perfeitamente, ao milímetro.

"Taking the human out of the loop", cuja tradução pode ser "tirar o humano do circuito", já está presente na cibernética de Norbert Wiener de meados do século passado. Desde então a possibilidade de se criarem máquinas inteligentes capazes de executarem tarefas sem intervenção humana, ou unmanned, tem evoluído consideravelmente ainda que, infelizmente, a sua expressão mais desenvolvida seja para fins militares. No campo civil temos as aplicações industriais e precisamente os transportes. Ainda na fase de protótipos é de prever que um dia os carros serão todos unmanned. Só então serão verdadeiros automóveis.

Espera-se assim que o interminável debate sobre o nosso comboio de alta velocidade tenha em conta esta realidade. É que no dia em que finalmente o chamado TGV português veja a luz do dia pode já estar obsoleto. Outro erro humano. Típico.

Artista Plástico
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Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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