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Mário Negreiros 24 de Outubro de 2003 às 10:57

Escutas, porcaria e TVI

A pérola da semana ouvi-a eu na TVI, que apontou, como agravante do “merdas” dito por Ferro Rodrigues quando se referiu a alguns juízes, o facto de ele saber, no momento em que o disse, que estava sob escuta telefónica.

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A pérola da semana ouvi-a eu na TVI, que apontou, como agravante do “merdas” dito por Ferro Rodrigues quando se referiu a alguns juízes, o facto de ele saber, no momento em que o disse, que estava sob escuta telefónica.

Vamos lá ver isso em detalhe: a TVI – ou o jornalista (ou o estagiário, ou quem quer que tenha escrito o texto veiculado na TVI) – considera que o facto de se saber que se está sob escuta telefónica obriga-nos a falar como se estivéssemos em público, num telejornal, na Assembleia da República... cabe ao escutado encarar o próprio telefone como um microfone com audiência nacional, e ter os devidos cuidados na forma e no conteúdo do que diz aos amigos, à mãe, aos filhos... porque não é nem com os amigos nem com a mãe nem com os filhos que está a falar, mas com toda a nação portuguesa (eventualmente, através da antena da TVI, que, com grande alarido, anunciou ter “declarações bombásticas” quando o que tinha não eram “declarações” nem “bombásticas”, mas apenas desabafos privados de quem se sentiu invadido na sua privacidade, tornados públicos através de violação do segredo de justiça).

Em verdade, em verdade vos digo: eu devia estar preso. A quantidade de gente que já ofendi, caluniei e injuriei em conversas privadas talvez fizesse de Ferro Rodrigues, comparado com este bronco que vos escreve, uma dama de delicadeza (e espero que o próprio não veja nisto uma injúria). Se me soubesse sob escuta, então, cuidado: não ia descansar enquanto não esgotasse o meu repertório de palavrões, não me calaria enquanto não ofendesse a quinta geração de quem se metesse a ouvir as minhas conversas privadas (isso, claro, se a coragem não me faltasse).

Mas, aparentemente – e a julgar pelos padrões de comportamento preconizados pela TVI – o bom cidadão deve portar-se rigorosamente ao contrário: caso se julgue sob escuta – mesmo que não seja arguido, suspeito, nada –, a primeira providência é moderar o linguajar e evitar ofensas a quem quer que seja e, principalmente, a quem promova a escuta de que é alvo. De duas uma: ou a TVI não considera que a sua própria programação está “sob escuta” ou não assume para si o comportamento que exige dos outros. Mas esse é outro assunto. Vamos a ele porque, no fundo, no fundo, o assunto é sempre o mesmo: porcaria (digo-o assim para manter algum decoro de linguagem).

A televisão portuguesa, especialmente a de sinal aberto, (nisso, a TVI não está sozinha) é uma porcaria. Ofende. Ofende os bons costumes, a decência, a delicadeza, os pruridos, a inteligência, a justiça, o senso estético e a verdade (não necessariamente nessa ordem). Mostra-nos um mundo que (graças a Deus!) não há, interpreta-o de maneira canhestra (o que é grave parece banal e o que é banal, grave) e – mal sobre todos os males – está em todos os lugares, omnipresente e omnignorante, a transmitir brutalidade, tristeza e fealdade. E o ecrã – esse ecrã cheio de porcaria – é, para milhões de portugueses, a principal, ou mesmo a única, janela para o mundo. Não admira, pois... nada admira.

PS: No editorial em que tenta responder às críticas que lhe foram feitas pelo bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice, a TVI diz: “Os nossos juízes são os telespectadores”. Mais uma pérola do populismo temerário dessa emissora. Levada a frase às suas últimas consequências, a TVI mostra-se, publicamente, adepta do linchamento como única forma legítima de se fazer justiça.

PPS: Por que cargas d´água só os restaurantes caros é que não têm televisões aos berros em cima dos seus clientes?

PPPS: Os #$?%(%& que estacionam em cima dos passeios deviam mas era ir para a /&%#”=)(& e levar com eles as &=?#%$/& dos seus carros.

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