André Macedo
André Macedo 11 de março de 2018 às 22:15

Espelho meu: não há ninguém melhor do que eu

Claro que Assunção se julga melhor do que o presidente do PSD, o contrário é que seria notícia - e que espantosa notícia. A líder do CDS julga-se melhor do que Rio como se julga melhor do que António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa.

Assunção Cristas disse este fim de semana ao "Expresso" que se considera melhor do que Rui Rio. Era esse o título puxado para a primeira página do semanário. Lida a entrevista, percebe-se que a resposta da líder do CDS-PP tem outra profundidade e merece outra interpretação. Não é uma resposta egocêntrica. Não é o delírio de alguém a olhar-se deslumbradamente ao espelho. Não é, portanto, um beco sem saída. Claro que Assunção se julga melhor do que o presidente do PSD, o contrário é que seria notícia - e que espantosa notícia. A líder do CDS julga-se melhor do que Rio como se julga melhor do que António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa.

 

Na realidade, todos nós, salvo honrosas exceções, nos achamos melhor do que na prática somos. Melhores que os colegas de trabalho, melhores que o vizinho e o melhor amigo, melhores até do que a mulher ou marido com quem partilhamos a vida. Faz parte da natureza humana. Talvez tenha alguma coisa a ver com a necessidade de sobrevivência e seja um instinto natural: perante as dificuldades, sobrevalorizamos as nossas qualidades e ignoramos as fragilidades (digo: fraquezas) para resistir ao passar do tempo.

 

O problema é de natureza diferente. O grau de complexidade do mundo aumentou espantosamente nas últimas décadas. No arranque do programa que faço (fazemos) na RTP3, o "Tudo é Economia", aparece um par de mãos a tentar montar uma torradeira. Em termos técnicos, não haverá quase nada mais simples do que uma máquina que torra o pão. Não estamos a falar de um telemóvel repleto de engenharia de última geração, nem de políticas públicas que mexem com a vida de um país. Por 20 euros temos uma maquineta daquelas em casa e não pensamos mais no assunto.

 

Mas a maravilhosa torradeira é uma metáfora extraordinária do grau de complexidade e interdependência que vivemos: quem seria capaz de construir uma sozinho? Há um livro sobre o assunto, escrito por um artista (Thomas Thwaites), onde ele descreve a impossibilidade de produzir o aparelho apenas por ele, mesmo guiando-se através do imenso arsenal de informação disponível.

 

Para se ter uma ideia do mundo complexo em que vivemos, entre 2004 e 2014 foram lançados cinco mil novas publicações para acolher todos os resultados de investigações que chegaram a uma conclusão científica qualquer. Todos os dias há estudos bons e maus sobre isto ou aquilo. Para lidar com esta fonte inesgotável de conhecimento, hoje mais do que nunca é preciso não estar sozinho à frente do problema. E mesmo assim, a probabilidade de fracasso é enorme.

Em 1958, a esperança de vida de uma empresa do índice S&P era de 61 anos. Hoje a capacidade de resistência à inovação e à concorrência reduziu este valor para um terço: as empresas não duram em média mais de 20 anos. Achamos espantosa a lastimável a quebra do BES e da PT ou até os desaires dos CTT, mas o natural é isso mesmo: por delinquência, incompetência ou obsolescência - ou até sacanice - hoje o dia do julgamento final está mais próximo para todos.

Assunção Cristas não é uma novata na política. Tem certamente capacidade analítica e qualidades intrínsecas, e também defeitos, que os media evidenciam para comunicar melhor. É isso que faz a chamada de capa do "Expresso". Talvez o faça também porque hoje o "statu quo" gosta de malhar em Rui Rio, neste caso sobrevalorizando a concorrente à direita, nem que para isso ignore as sondagens que não apontam no sentido pretendido: que o PSD mais ao centro abre o flanco à cavalgada do pequeno CDS. Propaganda à parte, tudo dependerá do que um e o outro conseguirem fazer - não sozinhos, mas em colaboração interna e externa. Não há auto-suficiência em política nem em quase nada. Talvez esta seja a melhor lição da geringonça.

 

P.S. Um amigo psicólogo deu-me a ler um livro sobre os CEO psicopatas. A tese é boa e vale também para os políticos: será que para chegar tão alto é preciso sofrer de algum tipo grave (gravíssimo) de psicopatia? Nesse caso, as manifestações de vaidade seriam um sinal muito suspeito.

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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