Leonel Moura
Leonel Moura 29 de julho de 2016 às 00:01

Esquerda volver

O Presidente Marcelo não se cansa de afirmar que Portugal está pacificado. Não há sinais de crispação política na população. E é verdade. O povo está sereno. Mas isso não significa que o país não esteja cada vez mais dividido entre esquerda e direita.

A saga das sanções demonstra-o na perfeição. A esquerda resistiu com tenacidade às pressões de Bruxelas, enquanto a direita desejou o pior para o próprio país.

 

Há claramente uma radicalização à direita. Sobretudo no PSD. O povo não está a gostar como se vê pelas sondagens. Desagrado tanto mais significativo quanto a maioria dos comentadores e analistas preenchem a quase totalidade do espaço mediático alinhando com as posições catastrofistas de Passos Coelho. Usando e abusando da palavra "mas", menos como aviso e mais como ameaça. As contas estão a correr bem? Sim, mas vão começar a andar mal. O emprego está ligeiramente melhor? Sim, mas já vai piorar. O défice vai ser cumprido? Sim, mas não vai chegar. Cansa. Cansa não ouvir uma única proposta séria, um estímulo, um entusiasmo. Como se a desgraça fosse o único destino possível e para muitos desejável, desde logo para que se possa reivindicar que se teve razão.

 

E certamente que um dia terão a sua razão. Não há história de nenhum governo a quem tudo tenha corrido bem todo o tempo. Chegará o dia em que alguma coisa dê para o torto. Aliás basta pensar no anterior governo. Impôs enormes sacrifícios, cumpriu com subserviência todas as ordens da troika, seguiu as teses dos habituais muito reputados economistas. E afinal falhou em tudo. Nem sequer conseguiu atingir os 3% de défice. Para já não falar dos buracos financeiros que deixou por todo o lado, a falência de bancos, a estagnação da economia.

 

À esquerda põe-se, portanto, a questão de saber se se deve manter o rumo sereno da atual coligação ou virar um pouco mais à esquerda. Com isto significando para já duas coisas. Distribuir melhor a riqueza produzida pelo país, acabando com a benevolência fiscal e os benefícios dos grandes grupos económicos e dos ricos em geral, e aprofundar o caráter público e tendencialmente gratuito sobretudo na educação e na saúde.

 

Como disse Bernie Sanders, as pessoas estão fartas de uma classe política que existe para servir a ultraminoria rica. Daí a procura de novos protagonistas, de que ele é um exemplo maior. O acordo à esquerda em Portugal insere-se aliás nesse movimento. Impensável tornou-se indispensável face à visão retrógrada dos servidores do capital, como diria o PC.

 

Espera-se pois que o PS esteja preparado para enfrentar o verdadeiro poder das nossas sociedades. Desde logo os famosos mercados, mas também os potenciais investidores e os empresários em geral. Basta ouvir as declarações das respetivas associações para se perceber que rejeitam qualquer alteração. São contra a redução do horário de trabalho, a mera reposição dos vencimentos na função pública, o magro aumento do salário mínimo. E, no entanto, a realidade demonstra que o sistemático benefício do capital não tem representado nenhuma melhoria das condições de vida e nem sequer do próprio sistema, a começar pelo bancário que vai de falência em falência com tanta incompetência e descarado roubo.

 

A esquerda, que atravessa o seu melhor momento desde o 25 de Abril, deve ter a coragem e engenho para realizar mudanças profundas sobretudo no sistema fiscal e no fortalecimento do serviço público. Se não o fizer, perde uma grande oportunidade. Não há que ter medo. A ousadia é bem melhor.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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