Álvaro Nascimento
Álvaro Nascimento 26 de fevereiro de 2018 às 20:00

"Estado para as tempestades e a bonança!"

A insistência em modelos capitalistas (sem carga ideológica) do passado, que não têm mais aplicação à economia da era digital, rasga cadeias de valor e, à vista de todos, apenas traz instabilidade financeira.

A FRASE...

 

"Precisamos de um verdadeiro compromisso nacional para a reindustrialização e competitividade, única forma de criar riqueza e empregos de qualidade, sustentáveis no tempo."

 

Luís Mira Amaral, Vida Económica, 23 de Fevereiro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

O título do artigo donde foi retirada esta frase é bem mais ilustrativo das urgências do país: "Esta Fábrica Portugal nem 1% dá." Mas, na política em que se discutem os pactos de regime, a prioridade encaminha-se para a justiça e a descentralização administrativa, quando há reformas mais urgentes e imprescindíveis para projetar uma sociedade mais rica no futuro.

 

É verdade que os empresários e gestores acusam a justiça e a burocracia do Estado como estando entre os principais obstáculos à competitividade, causadores de dificuldades no comércio internacional e travão da expansão dos negócios e do emprego. Enquanto tais "custos de contexto" persistirem, o país continuará a marcar passo, argumentam.

 

Tenho uma posição crítica sobre tais externalidades negativas que pesam sobre as empresas. Penso que o país assiste a um debate esquizofrénico entre a rigidez do quadro institucional e a flexibilidade exigida pelos tempos de mudança. Em Portugal, a feitura das leis parece revelar um profundo desconhecimento do mundo real e da capacidade de os agentes económicos - nomeadamente as empresas - reagirem ao desconforto e se adaptarem. Aliás, faz parte do instinto de sobrevivência e da natureza social do homem.

 

O insucesso no PIB potencial - que me parece opinião unânime - tem dupla responsabilidade: o Estado e as empresas. Numa, apenas aparente, incapacidade de compreender a dinâmica do sector produtivo - de bens e serviços - o Estado faz políticas assistencialistas, ao jeito de quem se quer indispensável. As empresas, compreendendo as regras do jogo, ajustam-se aos estímulos, originando modelos produtivos frágeis que, sempre que necessário, remetem os riscos para a esfera pública.

 

A resposta das empresas - apesar de totalmente legítima - é coletivamente inconsistente. Mas, é ao Estado que compete compreender as urgências do momento, que são a contratação dos factores de produção: capital e trabalho. A insistência em modelos capitalistas (sem carga ideológica) do passado, que não têm mais aplicação à economia da era digital, rasga cadeias de valor e, à vista de todos, apenas traz instabilidade financeira e precariedade para o mercado de trabalho.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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