Carmen Reinhart
Carmen Reinhart | Vincent Reinhart 18 de fevereiro de 2018 às 14:00

Estarão os preços do petróleo a caminho de outro pico?

O aumento das receitas petrolíferas melhora a situação orçamental da maioria das economias produtoras desta matéria-prima e há países que aproveitaram o maior apetite por parte dos investidores internacionais para emitirem dívida soberana.

O preço da gasolina premium superou os 3 dólares por galão em grande parte dos postos de combustível nos EUA durante as últimas semanas, o que é surpreendente para os consumidores mas não para os analistas dos mercados petrolíferos mundiais. Desde o seu mínimo local, há dois anos, o preço do petróleo mais do que duplicou. E, como acontece em qualquer mercado, o nosso posicionamento perante esta subida dos preços depende de onde estamos.

 

O aumento dos preços do petróleo é o pilar dos produtos de "ouro negro", tanto a nível nacional como no estrangeiro. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu um alta as perspectivas de crescimento do PIB de seis dos dez maiores produtores de petróleo, que foram apresentadas em separado na sua actualização das estimativas para 2018 e o crescimento previsto dos volumes do comércio mundial foi elevado em meio ponto percentual para este ano e para o próximo.

 

O aumento das receitas petrolíferas melhora a situação orçamental da maioria das economias produtoras desta matéria-prima e há países que aproveitaram o maior apetite por parte dos investidores internacionais para emitirem dívida soberana.

 

Nos Estados Unidos, os cinco Estados com os maiores aumentos de produção de petróleo durante a presente década registaram um crescimento do emprego de 2,75% em 2017, o que correspondeu ao dobro da média nacional. Enquanto isso, o número de plataformas petrolíferas em todo o país cresceu cerca de 50%.

 

Ao mesmo tempo, a duplicação dos custos energéticos penalizou significativamente os orçamentos familiares dos norte-americanos, com os custos da energia a representarem directamente cerca de 6,5% dos gastos dos consumidores. O aspecto mais problemático é que se trata de um imposto regressivo, que drena desproporcionadamente o poder de compra discricionário dos agregados familiares com menores rendimentos. No ano passado, a energia representou 8,7% dos gastos por parte de 20% das famílias situadas na parte inferior do quintil de rendimentos, contra 4,9% no quintil superior. Além disso, o grupo da base não possui activos líquidos para superar os maus períodos.

 

Este efeito tributário fundamenta, em parte, a forte associação entre as subidas súbitas dos preços do petróleo a nível mundial e as contracções económicas nos EUA documentada por James Hamilton, da Universidade da Califórnia San Diego. As lúcidas conclusões de Hamilton mostram que, ao longo da História, todas as recessões – menos uma – foram precedidas por um aumento dos preços do crude e que a todos os períodos de perturbação no mercado petrolífero – menos uma – se seguiu uma recessão.

 

Mas isso não significa que devemos sentar-nos e esperar por um período de contracção económica. Conforme já foi sublinhado, as subidas dos preços do petróleo têm estado associadas a um aumento do crescimento e, apesar de os episódios que Hamilton estudou terem mais a ver com perturbações de oferta, a história dos dois últimos anos representa uma combinação das forças da oferta e da procura.

 

Mais importante ainda: durante este período de subida dos preços da energia, a taxa de câmbio do dólar depreciou-se em cerca de 10% numa base ponderada em função das trocas comerciais. Com os preços do petróleo denominados em dólares no mercado mundial, isso teve um efeito material sobre os incentivos dos participantes do mercado em ambas as lâminas da tesoura da oferta-procura.

 

Um dólar mais fraco aumenta o poder de compra dos parceiros comerciais dos Estados Unidos (o chamado efeito Dornbusch, nome atribuído a partir do falecido economista do MIT Rudi Dornbusch), o que em parte orienta para um aumento da procura de energia. Os produtores de petróleo fora dos Estados Unidos vendem um produto denominado em dólar mas consomem um cabaz de produtos cujos preços estão fixados em dólares e noutras moedas. Para eles, um dólar mais fraco reduz o preço das exportações face às importações, pelo que restringem a oferta. A tesoura fecha-se com mais procura e menos oferta, o que implica um preço do petróleo mais elevado em dólares.

 

A queda da taxa de câmbio do dólar parece ter ganho impulso, em parte porque a pessoa que ordena a emissão da moeda norte-americana, o secretário do Tesouro Steve Mnuchin, parece imperturbável perante a sua debilidade. Se assim continuar, poderá resultar numa forte subida dos custos da energia? A nossa resposta pende mais para o não, e por três motivos.

 

Em primeiro lugar, o dólar depreciou-se face à maioria das moedas, mas menos face às divisas de importantes parceiros dos mercados emergentes, como a China.

 

Em segundo lugar, parte do aumento dos preços do crude resulta aparentemente de uma diminuição da oferta por parte dos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e dos seus amigos de conveniência (particularmente a Rússia). Não é coincidência que os preços do petróleo tenham começado a subir com o corte de produção do grupo "OPEP+", no final de 2016, e agora parecem elevados quando comparados com outras matérias-primas industriais.

 

Uma depreciação adicional do dólar, que leve à erosão da oferta e a um aumento da procura, poderá precisamente alterar isso. A Arábia Saudita dá uma grande importância à estabilidade e ao equilíbrio do mercado petrolífero, numa altura em que se aproxima a venda da sua posição de 5% na Saudi Aramco, a petrolífera nacional.

 

Para um mercado são, consistente com investimentos de capital de mais longo prazo, um preço do petróleo demasiado elevado pode ser tão complicado como um preço demasiado baixo. Nessas circunstâncias, os responsáveis do grupo OPEP+ poderão muito bem aproveitar a oportunidade para expandirem a oferta e, ao mesmo tempo, manterem os preços na via actual.

 

Em terceiro lugar, no que diz respeito à oferta, não podemos olhar exclusivamente para o exterior. O aumento a produção norte-americana de crude, graças aos avanços tecnológicos na produção de petróleo de xisto, tem sido estonteante.

 

Os Estados Unidos estão em vias de extrair mais petróleo este ano do que em qualquer outro momento da sua história. Contudo, os produtores nacionais têm-se revelado moderados, até agora, no aumento da oferta, supostamente devido ao desejo dos seus accionistas de obterem mais lucros e gastarem menos capital. Mas a tecnologia da produção avança e convidam a um aumento dos preços.

 

Em suma, é pouco provável que os efeitos do choque energético à escala da economia, ainda que desagradáveis, façam descarrilar o crescimento. No entanto, somos prudentes, pois os mercados das matérias-primas são voláteis. Num trabalho recente realizado com Christoph Trebesch do Instituto Kiel, contámos mais do dobro de ciclos de subida e posterior queda dos preços das matérias-primas do que nos fluxos de capital desde 1820. A economia global parece ter embarcado numa montanha-russa.

 

 

As opiniões aqui expressadas são dos próprios autores.

 

Carmen Reinhart é professora de Sistema Financeiro Internacional na Kennedy School of Government da Universidade de Harvard. Vincent Reinhart é economista-chefe e estratega de investimento na Standish Mellon Asset Management.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
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Tradução: Carla Pedro

 

 

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