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Manuel Pedroso Marques 14 de Outubro de 2004 às 13:59

Estratégias retardadoras d’o tempo

Durante a emissão da Antena 1, com a antena aberta aos ouvintes sobre a Região Autónoma da Madeira, do passado dia 8, um cidadão interveniente no programa informou que tinha deixado de ouvir a emissão logo que tinha começado a difusão das opiniões dos ouv

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A jornalista de serviço não mostrou o mais leve interesse sobre as condições de recepção da sua emissão.

Ouvimos, de seguida, o que o rádio-ouvinte tinha a dizer de sua justiça e pareceu-me que a passagem para o interveniente seguinte foi apressada, como se um mal-estar terminasse. Não sei se houve algum esclarecimento posterior, nem se correu ou corre algum tipo de indagação sobre o que o ouvinte informou. O que sei é que foi atribuído uma gravidade ao facto pela mera suposição de que a situação política na Madeira permite admitir que os responsáveis locais tenham feito uma conveniente «avaria técnica», para esconder um acto de censura, por medo de represálias ou por cumprimento de ordens de qualquer «poder» regional.

Esta suposição tem de ser desfeita, confirmada ou negada, porque não pode haver suposições desta natureza 30 anos depois d’O 25 de Abril.

Assistimos, numa semana, ao segundo caso em que a certeza ou a incerteza não pode estar confinada a uma subjectividade. A censura tem de permanecer objectivamente abolida. E sabe-se que para isto não bastou ter abolido os «coronéis da censura».

Em nome da segurança da Liberdade de um país deve exigir-se, também, ao Professor Marcelo Rebelo de Sousa que esclareça o teor da conversa com o Presidente da TVI e que o Presidente da República não se limite ao truísmo de que a censura deve acabar.

Em contrapartida, e não obstante o que temos assistido no campo da intromissão do governo na liberdade de opinião, constatamos, com a intervenção televisiva de Santana Lopes, que teve a desfaçatez de colocar «um tempo de antena» dentro do espaço do Telejornal da RTP.

A agenda própria de quem quer que seja não pode protelar o esclarecimento desta situação. Factos desta importância não podem ter efeitos retardados, a acumular com outros, como se fosse necessária uma dada «massa crítica» para justificar a decisão posterior. Nem o Presidente da República tem de estar à espera de constituir material de queixa para convocar eleições antecipadas, sob pena de vermos «limianizados» os processos, políticas nacionais, nem tem de tomar as decisões sugeridas pelo Primeiro-Ministro, mais inclinadas para a ideia de que, a dissolver?, quanto mais cedo melhor, do que para a correcção do seu comportamento político.

Neste jogo estratégico, em que as opções a tomar são tanto determinadas pelos interesses de uma parte como da outra, normalmente, temos uma estratégia de resultado nulo. Isto é, ganha-se o que também se perde. E, neste caso, o Estado Português, enquanto objecto das estratégias da Administração da República, é que perde. Perde tempo e perde «o tempo». E quem perde o seu tempo perde poder, como já dizia Maquiavel. A República Portuguesa desacredita-se, fica «caetanista», como o Doutor Jorge Sampaio já anotou, até perder autoridade para afirmar e impor o respeito pelos valores essenciais da Democracia.

Em conclusão, será de optar pela ideia que ponha termo a este clima empastelado de suposições desmotivadoras e, apesar dos inconvenientes da interrupção da legislatura, aproveitar a oportunidade constitucional de convocar eleições antecipadas, p’ra não perder tempo e recuperar o tempo.

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