Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 20 de fevereiro de 2018 às 22:22

Estudos de mercado e os Censos de 2021

Para estabelecer a sua estratégia, as empresas públicas ou privadas precisam de conhecer a realidade dos seus clientes, o seu nível de vida, a sua classe social, as suas necessidades e desejos.

Por isso, recorrem com frequência a estudos de mercado, inquirindo os clientes e potenciais clientes através de várias técnicas qualitativas e quantitativas.

 

Os estudos de mercado quantitativos servem-se de amostras para chegar a conclusões. Mas só conhecendo o universo se consegue dele retirar esse pequeno grupo representativo que é a amostra. Os censos fornecem o universo. Percebe-se então que as empresas necessitem dos censos periódicos para evitarem a recolha de informação de carácter geral e estável e para os usar como universo aferidor da validade dos estudos de mercado que encomendam.

 

Sem os censos, as empresas não conhecendo a realidade na qual se movem, agem qual cego sem bengala ou referências. Por isso, em todo o mundo, as empresas preferem censos completos e precisos.

 

Os censos são também indispensáveis a académicos e governantes para conhecer a realidade do país e para delinear as políticas que corrijam desequilíbrios e injustiças e promovam o desenvolvimento e o bem-estar gerais.

 

Imaginemos um censo em que se descurasse uma região. Por exemplo, Lisboa e Vale do Tejo. Todos os estudos sobre Portugal estariam errados, porque faltava informação sobre uma grande parte do todo do nosso país.

 

Imaginemos que não queríamos saber do género de cada português. Não saberíamos quantos homens e quantas mulheres existem no país, não saberíamos depois se as mulheres têm igual acesso ao ensino, ao trabalho, à saúde ou aos cargos políticos. Não tendo a informação sobre o género não a poderíamos intersectar com outras, Como poderíamos delinear políticas de igualdade de género sem esse conhecimento base?

 

Como pode uma empresa desenvolver um produto para mulheres da classe média sem saber o tamanho desse mercado? Sem recolher informação sobre o género não se consegue, depois, cruzar essa informação com a dimensão classe.

 

Perguntas simples têm impacto duradouro e influência nas ações que se levam a cabo a vários níveis quer das políticas governamentais quer nas decisões empresariais.

 

Portugal, país secularmente multiétnico e multirracial, prepara-se para levar a cabo um censo em que se não inclui informação étnico-racial. Uma péssima notícia para todos.

 

Será útil ficar na ignorância num tema de crucial importância política, económica e social? Não querer saber é também uma escolha. É optar pelo perigoso caminho da ignorância propositada num mundo de informação e conhecimento.

 

Como se pode depois combater o racismo sem informação precisa? Como determinar qual a percentagem de negros que não entra na universidade e criar os incentivos para aumentar esse número? Como aferir a percentagem de ciganos que vive em guetos e promover a sua integração espacial nas cidades do nosso país? Como lançar no mercado um produto de beleza para negros? Como agir sem informação?

 

Pode um país optar por não querer conhecer a sua própria realidade? Pode o Estado negar o direito de conhecer a sua própria sociedade aos portugueses? Pode a alguém ser negado o direito de se ver ao espelho das estatísticas?

 

Um censo é assunto demasiado sério para decisões políticas de gabinete, falsamente técnicas, sem envolver as empresas e as associações da sociedade civil, nomeadamente as mais representativas ou ativas? Porque não integrar na preparação do censo, movimentos como o Consciência Negra ou outros?

 

Veja-se o exemplo dos EUA em que associações de luso-americanos estão representadas nos comités de preparação do Censo de 2021 e que aí estão empenhadas em defender que estes americanos e os emigrantes portugueses não sejam classificados como hispânicos que não são.

 

É este espírito de abertura e diálogo que permite as boas soluções técnicas que tanto agradam às empresas, às entidades de estudos de mercado, aos académicos e aos melhores políticos. Ainda vamos a tempo de melhorar a preparação do próximo censo. Haja coragem política.

 

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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