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Estupidez coletiva?

Primeiro com Douglas Hofstadter, no final dos anos 70, e depois com Francis Heylighen, já na década de 90, o conceito de "Inteligência Coletiva" foi tomando forma.

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Primeiro com Douglas Hofstadter, no final dos anos 70, e depois com Francis Heylighen, já na década de 90, o conceito de "Inteligência Coletiva" foi tomando forma. Significa a decisão que emerge da colaboração, competição e mesmo conflito entre muitos indivíduos que se debruçam sobre um mesmo problema. A democracia é isso.

Mas quando se fala em inteligência não nos referimos exclusivamente ao aspeto positivo do conceito. É que a inteligência inclui também a estupidez.

Os últimos tempos são bastante esclarecedores sobre a formação de ondas de estupidez. Veja-se o caso da Itália. Durante quase duas décadas os italianos escolheram um primeiro-ministro claramente inapto. Ao longo desse período, a espuma dos dias foi dando destaque a frequentes gafes, historietas sexuais e processos judiciais, nesse modo truculento e burlesco de fazer política, na tradição de Mussolini. Mas isso não é o mais relevante. Berlusconi propôs-se gerir a sociedade como quem gere um qualquer negócio. Nessa medida, apresenta-se aliás como um "case study" de uma tendência que viria a fazer escola e que hoje domina o pensamento de grande parte da elite política ocidental.

Ora, a sociedade não é uma empresa. A democracia não serve para eleger um conselho de administração nacional. Nem os eleitores são acionistas.

Apesar desta evidência, uma maioria de italianos considerou que, se Berlusconi tinha tido sucesso nos negócios, também o teria na gestão pública. O que está por demonstrar, como se sabe. E não deixa de ser admirável que a saída de cena de Berlusconi não tenha sido provocada pelo normal funcionamento do processo democrático, mas precisamente pela idiossincrasia dos mercados.

Neste contexto, não menos estúpida é a reação dos que vieram para a rua festejar a sua demissão. Imagino que muitos deles foram os mesmos que lhe deram alguns votos no passado. Mas mesmo que assim não seja, não há nada para celebrar. A demissão de Berlusconi é, por um lado, uma clara derrota da democracia. E, por outro, não implica nenhuma mudança objetiva de políticas. Os italianos vão sofrer a austeridade, única receita que a tecnocracia europeia atual conhece.

Em Espanha verifica-se a emergência de uma similar vaga de estupidez coletiva. A campanha do PP parece ser tirada a papel químico do que sucedeu em Portugal. Também aqui o PSD se apresentou como salvador da pátria, prometendo baixar impostos e acabar com o despesismo do Estado. A realidade mostra como tudo não passa de uma gigantesca fraude eleitoral. Os espanhóis que agora se preparam para dar maioria absoluta à direita depressa irão sofrer as respetivas consequências.

A teoria Gestalt diz-nos que, em determinadas circunstâncias, o Todo é superior à soma das partes. Hoje vamos assistindo a um fenómeno inverso em que o Todo é inferior à soma das partes. Devido às opções políticas, que se apresentam como únicas e consensuais, Portugal vale agora menos do que o conjunto das suas gentes e energias. E quem diz Portugal, diz muitos países europeus e o chamado mundo ocidental em geral. De qualquer modo, não se podem reduzir as responsabilidades só aos que no topo tomam decisões.

Bem sei que os políticos, ou qualquer pessoa com expressão pública, não gostam de chamar estúpido a essa amálgama que dá pelo nome de povo. Em nome da democracia ninguém arrisca dizer que o povo escolhe mal. Mas é isso mesmo que sucede com frequência. A democracia é uma bela coisa, o melhor sistema que existe, mas não é infalível. A situação a que chegámos deriva de sucessivas opções erradas tomadas pelo coletivo. E já que não se pode mudar de povo, pelo menos de um dia para o outro, fica claro que precisamos de uma muito maior consciência das responsabilidades de cada um de nós. Falta claramente cultura política e, se possível, uma nova cultura política, vocacionada para o interesse público, para o bem-estar geral e para o desenvolvimento sustentável da sociedade. Só assim se pode promover a inteligência coletiva.


Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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