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António Gomes Mota 03 de Janeiro de 2006 às 13:59

Ética

A ética constrói-se e desenvolve-se nos pequenos nadas, nos custos-benefícios marginais, moldando o carácter, para as grandes coisas que porventura virão um dia.

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Para primeiro artigo de 2006, ocorreu-me contar um pequeno episódio que vivi há mais ou menos um ano.

Realizei, então, um exame de uma cadeira de um curso de pós-graduação. Um uso indevido do copy-paste, uma das pragas modernas que a micro-informática nos ofereceu, fez com que tivesse entregue aos alunos, sem que me tivesse dado conta, o enunciado do exame do ano anterior, cuja solução lhes havia disponibilizado, como é habitual, alguns dias antes e que traziam consigo, já que os meus exames são sempre com consulta.

Nos minutos seguintes, notei alguma agitação entre os alunos, conversas em tom muito baixo, típicas na última meia hora de exame, mas não no início, muitas trocas de olhares, também invulgares num arranque de prova.

Ao fim de algum tempo um aluno dirige-se a mim e simplesmente me diz «que não podia continuar aquele exame, já que era igual ao do ano passado». Descoberto o erro e anunciando-o à turma toda, seguiu-se um coro de vozes que anunciavam que era justamente isso que também se aprestavam para fazer. Aprestavam, sublinhei, apenas para mim, o que certamente seria verdade em relação a alguns, mas também certamente não, em relação a outros.

Pelo meio tive ainda oportunidade de constatar alguns factos curiosos, como o aluno que me colocou uma dúvida não fosse a minha solução estar errada, um outro que ficou feliz com a anulação do exame pois estava a achá-lo muito difícil, não tinha tido tempo de sequer olhar para o do ano anterior, desconhecendo assim que tinha a chave do tesouro no meio dos apontamentos, ou ainda um aluno que achou que não era engano nenhum mas antes uma recompensa e justa, de um intenso acompanhamento das aulas e de resolução de casos, que aquela turma efectivamente demonstrou.

Mas a verdade é que houve alguém que deu o primeiro passo. Poderia ter levado menos tempo, provavelmente, mas também poderia não ter havido passo nenhum.

E também é verdade que há uma abissal diferença entre a concordância com uma atitude correcta e tomá-la, quando o caminho mais fácil seria simplesmente aguardar e ver o que acontecia.

A ética constrói-se e desenvolve-se nos pequenos nadas, nos custos-benefícios marginais, moldando o carácter, para as grandes coisas que porventura virão um dia. Os bancos da Escola, são neste domínio, um terreno valioso, para formar comportamentos e atitudes, e sem necessidade de muitas lições, módulos ou disciplinas que destilem ética ou responsabilidade. Bem mais simples e, creio, bem mais eficaz, bastará destacar quem justamente se destaca positiva e negativamente e, nestes últimos, olhando menos para regulamentos disciplinares ou similares, já que mais do que o trabalho ou exame anulado, que num contexto laxista é apenas sinal de azar, descuido ou amadorismo, o que deve verdadeiramente contar é dissonância de comportamentos desviantes numa instituição que quer preservar valores e princípios de conduta.

Costumo dizer, simplificando, que a ética e responsabilidade social das empresas, hoje em dia tão sublinhada, tem que ser, em ultima instância, a agregação de éticas e responsabilidades individuais ou, noutro plano, o espelho ampliado de uma dimensão humana que deve circular em toda a organização, mas cuja base deverá estar já solidamente incutida quando se ingressa na mesma.

Pela minha parte, assumo o compromisso de fazer mais e melhor, enquanto professor e dirigente de uma escola, para sermos mais proactivos e mais exigentes neste domínio crucial de evolução de uma sociedade, servindo de estímulo a expressão meio atrapalhada do David Batalha, ao dizer-me que aquele exame não tinha qualquer sentido pois era igual ao do ano passado.

Um bom ano para todos os leitores.

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