Leonel Moura
Leonel Moura 22 de janeiro de 2015 às 21:21

Eu sou grego

A Grécia foi o berço da Democracia. Volta a sê-lo. Agora de uma democracia reanimada. Uma vitória do Syriza este domingo terá um grande alcance. Muito maior do que a simples ascensão da extrema-esquerda ao poder governativo.

 

É a própria democracia, tal como ela tem sido entendida e praticada, que sofre um grande abanão.

 

Vivemos, na Europa, no lugar mais livre do planeta, onde o cidadão tem mais direitos e maior diversidade de escolha política. Um espaço tão livre que assusta muita gente, como se sabe. Fundamentalistas, fanáticos, tiranos de todo o género. E também muitos idiotas, sobretudo nas extremidades da direita e da esquerda.

 

Mas, nem por isso, podemos falar de uma democracia avançada. Os mecanismos de controlo e sobretudo de condicionamento do voto são poderosos e conhecidos. O dinheiro dá os meios, a informação manipula os factos. O cidadão comum é pouco atento e, genericamente, bastante confuso. Segue a política da mesma forma que segue o futebol ou a última moda. É influenciável, vítima do marketing. Tende por isso a acreditar nos que mais vezes aparecem nas pantalhas e escolher os que mais habilmente o enganam. Em suma, a maioria dos eleitores são baratas tontas. Andam aos ziguezagues sem pensar nas consequências do seu voto. E como dizia Emídio Rangel ciente desta realidade: deem-me um canal de televisão e eu vendo um Presidente. Daí o ciclo esquizofrénico de entusiasmo e desilusão que caracteriza as nossas democracias.

 

Apesar do descrédito da política as nossas sociedades vão assim saltitando numa alternância inconsequente. Umas vezes vota-se à direita, outras na esquerda moderada. O centrão domina. E com ele o mesmo pensamento, as mesmas receitas, as mesmas políticas ditas irremediáveis.

 

Uma vitória do Syriza quebra este círculo vicioso. Pode não conseguir mudar a realidade social da Grécia da noite para o dia. A dependência entre países, avassaladora no caso da Europa e da moeda única, dificulta qualquer solução heterodoxa. Aliás, temos visto o mecanismo do condicionamento a funcionar. As ameaças da Alemanha e em geral de toda a direita europeia e parte dos partidos socialistas; as pressões dos "mercados"; a criação de um clima de medo que possa levar os gregos a votar na suposta segurança que a direita oferece. Não fosse tudo isto demasiado banal e seria um escândalo. Seria mesmo um crime contra a própria democracia que todos dizem defender nos atos solenes.

 

A novidade da Grécia é que a artilharia não está a resultar. Quanto mais a senhora Merkel dispara, mais o Syriza sobe nas sondagens. A possibilidade de este partido chegar ao poder é por isso a consumação de uma rutura importante. Representa o fim da ruinosa alternância. Abre uma porta decisiva que, mais do que os discursos piedosos sobre a crise da democracia, pode levar a mudanças efetivas. A mera hipótese dessa vitória já está a alterar comportamentos. Há muita gente em pânico. Em Bruxelas arrancam-se cabelos. Por cá, Francisco Assis do PS exige ao Syriza compromisso, esta gente adora compromissos. Mas começam também a aparecer vozes que não se conformam com uma tão flagrante desvirtuação das regras democráticas. Na própria Grécia, o PASOK, parente do PS, já admite uma coligação. Tem certamente por objetivo tentar "controlar" os esquerdistas do Syriza, mas não deixa de ser notável assistir a uma tal inversão da geometria dominante. O To Potami, um partido confuso mas pró-europeu, também estará disponível caso o Syriza não consiga uma pouco provável maioria absoluta.

 

Em conclusão. A Grécia está prestes a provocar um verdadeiro terramoto na política europeia. Primeiro, porque vai fazer frente à ideologia dominante da austeridade, seguida pelos governos de direita e também pelos da esquerda socialista. Será necessário encontrar novas soluções, já que a expulsão não passa de uma chantagem reles. A renegociação da dívida é inevitável. Segundo, porque a vitória de um partido exterior ao famoso "arco da governação" quebra um inaceitável tabu antidemocrático. Se tal suceder, graças aos gregos, a Europa na segunda-feira será mais livre e mais democrata.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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