Leonel Moura
Leonel Moura 27 de setembro de 2006 às 13:59

Eudemonismo

A primeira vez que esta estranha palavra me despertou verdadeira atenção foi com a leitura das "Confissões de um Opiómano Inglês" de Thomas de Quincey.

Não é este o livro que mais aprecio do autor. "Do Assassínio como uma das Belas Artes" é o meu favorito mas, há que reconhecer a influência das Confissões na cultura dos paraísos artificiais de Baudelaire a Burroughs e no surrealismo em geral. Adiante.

Eudemonismo significa, segundo os dicionários, uma corrente da filosofia que coloca a felicidade no centro da ética. Vem de Aristóteles como tanta outra coisa e está presente em muito do pensamento ocidental, algumas vezes mais perto do humanismo outras do hedonismo. Embora as Confissões de De Quincey tratem a questão da felicidade (e infelicidade) na perspectiva de uma viagem de um peripatético drogado, não deixam de, ainda que brevemente, apresentar uma leitura do eudemonismo que desde logo me pareceu bastante interessante. "A minha grande aspiração é alcançar a felicidade, tanto a minha como a dos outros; não posso ver miséria à minha frente," diz ele.

Nesse sentido De Quincey define o conceito não só como filosofia da felicidade, a que por vezes chama ciência da felicidade, mas de uma felicidade que só é feliz desde que partilhada. Ou seja, que implica que a minha própria felicidade depende da felicidade dos outros. Ora esta ideia sempre me pareceu uma boa referência distintiva da esquerda. Aquela que está na origem da vontade de melhorar as condições de vida de todos e não só a minha própria ou a dos meus próximos. O que agora vulgarmente se exprime nas noções de igualdade e solidariedade. E isto, por oposição à direita mais egoísta do ponto de vista individual e que dá mais valor à justiça, enquanto mecanismo de regulação social. Para a direita a felicidade é vista como um conceito demasiado vago para poder servir como paradigma para a organização da sociedade. Embora como dizia Jeremy Bentham todos sabemos o que é a felicidade, porque todos sabemos o que nos dá prazer e todos sabemos o que nos causa dor. E todos sabemos que a procura da felicidade é aquilo que realmente nos move no dia-a-dia e ao longo de toda a vida, acrescento eu.

Apesar de tudo isto não é menos verdade que grande parte da esquerda acaba por se alimentar da infelicidade geral e faz mesmo dela um culto. Uma concepção da prática política como cultura da resistência e do negativismo, onde a luta social é vista como sacrifício, tornam a esquerda triste e nada estimulante. Como se o ser de esquerda fosse abdicar do bem-estar, do prazer e da realização pessoal e já agora da riqueza e prosperidade, descartadas como meras debilidades burguesas. Existe aliás uma outra referência que diz muito a este propósito sobre o equívoco do pensamento de muita da esquerda. Marx teria afirmado que na sociedade do proletariado as sanitas seriam de ouro. O que muitos interpretaram como uma desvalorização extrema dos bens materiais. Ora o contrário é mais plausível. Marx imaginaria uma sociedade tão rica e abundante onde até as latrinas seriam sumptuosas.

Em concreto, a felicidade como programa político surge em força com a revolução francesa, berço da própria noção de esquerda e direita, para regressar fugazmente em sublevações várias, no socialismo utópico e já na nossa época no Maio de 68. A revolução como festa, coisa rara, também passou por aqui em 74. Mais do que reivindicações avulsas ou construção de grandes narrativas ideológicas existe toda uma história de percursos pessoais e movimentações de massas que simplesmente procuram o maior bem-estar para os próprios e para todos. É humano e é da lógica da evolução da civilização. No fundo todas as pessoas, das mais humildes às mais sofisticadas, procuram a alegria e a festa, a paz e o convívio, a bonança e a segurança existencial. Tudo o resto são enganadores delírios religiosos ou ideológicos, intoleráveis explorações da dependência económica e verdadeiras alienações da condição humana.

Apesar disto a felicidade praticamente desapareceu dos programas políticos e só encontra, por estes dias, ainda algum vestígio nalguma cultura menos mundana. Os governos já não se preocupam com o assunto. Hoje a felicidade reduziu-se ao consumo. Por toda a parte nos vendem sorrisos fabricados e vidas por encomenda. Só se é feliz desde que se compre muita coisa e se imite o comportamento banal das estrelas, ricos e poderosos. Ao mesmo tempo que somos constantemente bombardeados por todo o tipo de catástrofes e seu cortejo de inomináveis misérias humanas que os media se afadigam em nos fornecer. O que leva a sentir que mesmo a nossa particular desventura já é um grande bem.

Não sei se a felicidade voltará a ser uma nova ideia na Europa e no mundo, como previa Saint-Juste há dois séculos. Mas é mais do que certo que um dia a humanidade retomará o seu caminho em direcção àquilo que de facto importa. A felicidade já e para todos, foi e continuará a ser o grande motor da acção humana e devia constituir o objectivo principal de qualquer actividade política digna desse nome. De contrário entregamos o nosso destino à alienação e à barbárie.

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