Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 21 de julho de 2016 às 20:25

Europa, Erasmus e futebol

A mobilidade internacional dos estudantes universitários e o futebol profissional europeu mediatizado têm sido dinâmicas importantes no desenvolvimento da identidade europeia.

As duas dinâmicas sociais que possivelmente mais estão a marcar o desenvolvimento de uma identidade europeia neste século são o programa Erasmus de mobilidade de estudantes do ensino superior e o futebol profissional global, centrado em Madrid, Barcelona, Londres, Munique, Milão, Paris, Lisboa, Roma e noutras cidades europeias.

 

As mudanças fundas sempre assentaram em mudanças de actores e não em mudanças de posições entre quem argumenta e contra-argumenta. O tempo passa e quando hoje se fala de mudança a um jovem, ele surpreende-se e pergunta: mas qual mudança? Para ele, as coisas nunca foram de outro modo e os anos 80, sem internet, telemóveis e multibanco, são apenas uma história curiosa.

 

O futebol é hoje uma presença importante no quotidiano europeu. O projecto de investigação "Football Research in an Enlarged Europe", liderado pela Universidade de Valência, mostra que o futebol não é apenas entretenimento, mas que se trata de um fenómeno estruturante do significado e modelador da identidade colectiva. O futebol espectáculo, mediatizado e globalizado, centrado nos campeonatos nacionais dos países europeus, é um tópico de conversa importante entre pessoas de todas as idades, classes sociais, homens ou mulheres. A cobertura mediática das ligas europeias de futebol profissional tem gerado um espaço público que hoje é genuinamente europeu. Mais de metade de quem segue o futebol vê jogos de campeonatos de outros países europeus que não o seu.

 

O mesmo se passa com a juventude universitária europeia, que hoje se movimenta num espaço sem fronteiras. O programa Erasmus de mobilidade dos estudantes universitários contribuiu decisivamente para criar um ambiente internacional, genuinamente europeu, entre os jovens de 17 aos 25 anos de idade. Muitos já viajavam pela Europa antes do Erasmus e muitos continuam a viajar sem Erasmus. Mas o que faz a diferença são os milhões de jovens europeus que todos os anos com base no Erasmus ou por causa do ambiente de mobilidade que o programa criou, vão estudar, estagiar e trabalhar noutro país da Europa que não o seu, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Hoje é, mas não era.

 

Trata-se de duas dinâmicas socioculturais importantes, cuja relevância se acentuará com o passar do tempo, em especial lá para meados do século, quando quem hoje tem 20 anos de idade estiver no comando dos destinos empresariais, mediáticos, culturais e políticos da Europa.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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