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Anatole Kaletsky 08 de Junho de 2016 às 20:30

Europa romana?

Itália está a recuperar o seu papel histórico enquanto fonte das melhores ideias europeias e liderança política e também, mais surpreendentemente, na economia.

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Com a União Europeia (UE) a começar a desintegrar-se, quem pode garantir a liderança para salvá-la? À chanceler alemã, Angela Merkel, é amplamente creditada a resposta à famosa pergunta formulada por Henry Kissinger acerca da aliança ocidental: "Qual é o número de telefone da Europa?". Mas se o número europeu tem um código de marcação alemão, vai directamente para uma resposta automática: "Nein zu Allem."

 

Esta frase – "Não a tudo" – é como Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), descreveu recentemente a resposta standard alemã a todas as iniciativas económicas apontadas ao fortalecimento da Europa. Um caso clássico foi o veto de Merkel à proposta do primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, sobre o financiamento de programas de refugiados na Europa, Norte de África e Turquia através de obrigações da UE, uma ideia eficiente e de baixo-custo também avançada por líderes financeiros tais como George Soros.

 

A recusa autoritária de Merkel a sequer considerar os mais abrangentes interesses europeus, se estes ameaçarem a sua popularidade interna, tornou-se num recorrente pesadelo para outros líderes da UE. Esta rejeição suporta não só as suas políticas económica e de imigração, mas também o seu bullying à Grécia, o seu apoio aos subsídios ao carvão, o seu apoio às fabricantes alemãs de automóveis face às emissões dos motores a gasóleo, a sua submissão à Turquia em relação à liberdade de imprensa e a sua má gestão do acordo de Minsk sobre a Ucrânia. Em pouco tempo Merkel fez mais para causar dano à UE do que qualquer outro político vivo, isto enquanto proclamava constantemente a sua paixão pelo "projecto europeu".

 

Mas para onde pode agora virar-se uma Europa desiludida com a liderança germânica? Os candidatos óbvios não irão ou não podem assumir o papel: o Reino Unido excluiu-se a si próprio; a França está paralisada até às eleições presidenciais do próximo ano e, possivelmente, para além dessa data; e a Espanha não consegue sequer formar Governo.

 

Isto deixa apenas a Itália, um país que, tendo dominado a política e a cultura europeias durante grande parte da sua história, é agora tratado como "periférico". Mas Itália está a recuperar o seu papel histórico enquanto fonte das melhores ideias europeias e liderança política e também, mais surpreendentemente, na economia.

 

A transformação do BCE feita por Draghi para criar o mais criativo e proactivo banco central é um claro exemplo disso mesmo. O enorme programa de quantitative easing que Draghi colocou em prática, face à oposição da Alemanha, salvou o euro contornando as regras do Tratado de Maastricht contra a monetização ou mutualização das dívidas governamentais.

 

No mês passado Draghi tornou-se no primeiro banqueiro central a levar a sério a ideia do helicóptero de dinheiro – a distribuição directa de dinheiro novo do banco central para os residentes na Zona Euro. Os líderes alemães reagiram furiosamente e estão agora a sujeitar Draghi a ataques pessoais nacionalistas.

 

De forma menos visível, Itália também liderou rebelião silenciosa contra os economistas pré-Keynesianos do Governo alemão e da Comissão Europeia. Nos conselhos da UE e novamente no encontro do mês passado do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington DC, o ministro italiano das Finanças, Pier Carlo Padoan, apresentou uma proposta de estímulos orçamentais mais forte e coerente do que qualquer outro líder da UE. 

 

Mais importante ainda, Padoan começou a implementar estímulos orçamentais reduzindo impostos e mantendo os planos de despesa pública, desafiando as exigências da Alemanha e da Comissão Europeia para que restringisse o seu orçamento. Como resultado, a confiança dos consumidores e dos empresários em Itália recuperou para o mais elevado nível dos últimos 15 anos, as condições de concessão de crédito melhoraram e Itália é o único país do G-7 que o FMI acredita poder crescer mais rapidamente em 2016 do que em 2015 (embora ainda a uma taxa insuficiente de 1%).

 

Mais recentemente Padoan criou uma imaginativa parceria público-privada para financiar a desesperadamente necessária recapitalização dos bancos italianos. E lançou a sua iniciativa sem esperar pela aprovação do BCE e dos decisores europeus, que antes bloquearam um "banco mau" devido à pressão da Alemanha. Os mercados financeiros premiaram imediatamente a Itália pela sua rebeldia, com o valor por acção do maior banco do país, o Unicredit, a disparar cerca de 25% em três dias.

 

A cada vez mais assertiva resistência de Itália aos dogmas económicos da Alemanha pode não ser surpreendente: o país sofreu com quase contínuas recessões desde que entrou no euro. Além do mais, Padoan, que já foi economista-chefe da OCDE, é o único ministro das Finanças do G-7 com formação económica profissional. Ele entende melhor do que ninguém que políticas orçamentais e monetárias mal orientadas têm sido a causa de base do mau desempenho económico da Europa, e que são responsáveis pelas tensões políticas que ameaçam destruir a UE.

 

O renascimento da autoconfiança e liderança de Itália pode também ser observado na política doméstica e internacional. Renzi foi o único líder europeu a aumentar a votação do seu partido nas eleições para o Parlamento Europeu de 2014, e o seu domínio na política italiana cresceu desde então. Enquanto políticos populistas ameaçam a Alemanha, França, Espanha e Reino Unido, Itália virou as costas a Silvio Berlusconi e Renzi reduziu o apoio à Liga do Norte e ao Movimento Cinco Estrelas. Em resultado, Itália começou a implementar reformas laborais, ao sistema de pensões e administrativas que eram impensáveis no passado.

 

E também nas relações externas Itália se tornou mais assertiva. O ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Paolo Gentiloni, está a colaborar com a sua antecessora, Federica Mogherini, agora a Alta Representante da UE para os assuntos externos, com vista à criação de políticas europeias mais pragmáticas e efectivas sobre a Líbia e a crise dos refugiados. De forma mais significativa, Itália está a liderar o esforço de reparação das relações com a Rússia depois da confrontação sobre a Ucrânia e de reforço da cooperação em relação à Síria. Esta campanha parece começar a dar frutos com o gradual levantamento das sanções contra a Rússia, a começar este Verão.

 

Tendo em conta os falhanços da liderança europeia por parte da Alemanha e o vácuo político em toda a UE, a decisão italiana de elevar o seu papel é seguramente acertada. Tal como Renzi disse numa recente entrevista, "depois de dois anos a ouvir, agora falo eu".

 

Ainda continua por se saber se Itália poderá reunir uma coligação de países economicamente progressiva e politicamente pragmática de forma a superar o conservadorismo e dogmatismo da Alemanha. Mas de uma forma, ou de outra, a política económica da Europa vai ter de se adaptar ao novo tipo de capitalismo global que emergiu da crise de 2008. Com sorte, uma nova espécie de líderes italianos, astutos e ágeis, vai manobrar os desajeitados dinossauros alemães, cujas regras e doutrinas ultrapassadas estão a levar a UE rumo à extinção.

 

Anatole Kaletsky é economista-chefe e co-chairman da Gavekal Dragonomics e autor do livro Capitalism 4.0, The Birth of a New Economy.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: David Santiago

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