Daniel Traça
Daniel Traça 27 de junho de 2019 às 18:36

Facebook entra na finança - a ameaça da LIBRA

O Facebook já prometeu proteger a informação dos clientes e não a usar para publicidade. Mas haverá muitas outras formas de ganhar dinheiro com isto, sendo que muitas estão ainda por identificar.

Mark Zuckerberg, com a irreverência que o distingue, anunciou que o Facebook lançará uma moeda própria, a LIBRA. Segundo Zuckerberg, o objetivo da LIBRA é permitir a "bancarização" de utilizadores do Facebook sem contas bancárias (nomeadamente em países com sistemas bancários pouco desenvolvidos). Mas, a meu ver, as motivações de Zuckerberg são bastante mais paroquiais, como é tradição em Sillicon Valley - competir com um setor tradicional de forma disruptiva. Neste caso, o objetivo é o sistema mundial de pagamentos, competindo diretamente com a banca através de um modelo de negócio facilitado pela tecnologia.

 

Na versão tradicional dos livros de economia, a moeda tem três funções fundamentais: meio de pagamento (i.e. forma universalmente aceite por decreto legal de liquidar transações); unidade de valor (i.e. forma de medir o valor de todo e qualquer produto ou serviço); e reserva de valor (i.e. forma de poupar e guardar capacidade aquisitiva através do tempo). O modelo de negócio dos bancos tradicionais captura valor da capacidade única de criar moeda que lhe é concedida pelos bancos centrais, e tem como contrapartida uma supervisão apertada - só estes podem gerar crédito e depósitos bancários e processar os pagamentos subsequentes a partir de muito poucas reservas, com a segurança de recorrer ao banco central em situações difíceis. Sem essa segurança não há confiança e sem essa confiança não há moeda.

 

Com a LIBRA, a moeda tradicional terá uma quarta função: fonte de informação. É fácil perceber que a moeda é uma extraordinária fonte de informação e dados. Se o leitor pensar o que se saberá sobre a sua vida de acordo com tudo o que transaciona: onde compra, o que compra, quando compra, quanto compra. O mesmo ocorre para quem vende, para quem empresta ou pede emprestado.

 

O que Zuckerberg espera, a meu ver, é ter acesso a esta informação e, com ela, criar propostas de valor para os seus clientes e lucros para a empresa. O Facebook já prometeu proteger a informação dos clientes e não a usar para publicidade. Mas haverá muitas outras formas de ganhar dinheiro com isto, sendo que muitas estão ainda por identificar. É de notar que o pânico sobre a disponibilização da informação é uma abordagem redutora da questão - a disponibilidade de dados pode ser muito benéfica para os clientes se, por exemplo, permitir uma gestão de crédito e de risco mais eficaz que autorize taxas de juro mais baixas ou servir para alimentar anonimamente as plataformas de inteligência artificial.

 

Será o Facebook capaz de competir com o sistema bancário tradicional? A preocupação é grande. Poucos dias depois do anúncio de Zuckerbeg, o G7 decidiu criar um grupo para estudar os riscos destas moedas e o Bank for International Settlements (BIS) chamou a atenção para a disrupção que as empresas de tecnologia podem causar no sistema financeiro. Isto apesar de várias criptomoedas terem surgido nos últimos anos, com sucesso moderado. Depois da bolha em 2017, a Bitcoin registou uma valorização notável e tem atualmente uma circulação de US$172b. O inventor da Bitcoin continua por identificar e a sua motivação neoanarquista consiste em reduzir o poder dos bancos centrais na economia mundial. Terá a LIBRA mais sucesso?

 

A competitividade de uma moeda tem que ver com a confiança e com os baixos custos de transação. Nesse sentido, a LIBRA terá de ser estável, comummente aceite, conveniente e barata de usar se quiser vencer. A meu ver, a possibilidade de sucesso da LIBRA nestas dimensões é real. Em primeiro lugar, relativamente à estabilidade, um ponto técnico importante é que enquanto criptomoedas como a Bitcoin têm um regime de câmbio flutuante (com o seu valor a oscilar de acordo com as expectativas dos seus detentores), o Facebook definiu para a LIBRA um regime de câmbios fixo de acordo com um conjunto de moedas tradicionais. Este ponto implica que a LIBRA terá um valor estável, pelo menos até conquistar a confiança dos seus utilizadores. A possibilidade de o câmbio flutuar e ganhar poder emissor fica para mais tarde, quando a confiança for um dado adquirido.

 

Em segundo lugar, a LIBRA tirará partido da rede de 2,37b utilizadores que tem (em comparação, a China tem uma população de 1,38b). Se obtiver a confiança dos seus utilizadores a sua aceitação será um sucesso imediato e rivalizará apenas com o dólar na economia mundial. Em terceiro lugar, um porta-moedas digital com transferências interpessoais será o mais conveniente dos meios de pagamento, como qualquer utilizador do MBWay já descobriu em Portugal.

 

Por último, em quarto lugar, é nos custos que a capacidade competitiva da LIBRA é mais relevante. A banca tradicional está hoje sob pressão de uma regulação muito pesada e de um ambiente de taxas de juro negativas que esgota a capacidade de financiar a atividade bancária. A alternativa para a banca tradicional passa pela cobrança de comissões aos utilizadores. A este modelo de negócio, o Facebook vai contrapor a receita de Sillicon Valley: serviços oferecidos a baixo preço ou gratuitamente em troca de dados e informações que sejam utilizáveis para criar e dirigir ofertas inovadoras. Também aqui é muito provável que a LIBRA seja muito competitiva com as moedas tradicionais e o Facebook com o sistema bancário. Esta é uma lição fundamental para a banca, nomeadamente em Portugal: a transformação digital não é apenas tecnologia, mas sobretudo a alteração de modelos de negócio e de cultura que a tecnologia facilita.

 

Monetizar dados contra cobrar por serviços bancários - a corrida começou! As grandes incógnitas, a meu ver, são a reação dos reguladores e dos bancos centrais, e se os utilizadores confiarão em Zuckerberg para assegurar o valor da LIBRA. Uma coisa é certa, a "Big Tech" assumiu-se de uma vez por todas como o grande concorrente da banca.

 

Professor na Nova SBE

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