Jorge Marrão
Jorge Marrão 16 de junho de 2015 às 21:00

Falência política e geracional

A dívida e a demografia farão a reforma estrutural que temos vindo a adiar. Salazar ainda persiste no dia-a-dia do nosso Estado. Agora temos uma relação tecnológica e informática com ele. Melhor não poderia ser para quem o concebeu como o centro e o disciplinador da sociedade.

Mais rapidamente se intromete na nossa vida. As informáticas disparam avisos atrás de avisos, prazos, multas, penalidades, formulários e anexos, cumprimento de obrigações, informações, inquéritos, requisitos, documentos para pagar, ofícios, códigos multibanco, plataformas do e-governo e um sem-número de "papeladas" electrónicas para nos explicar que temos uma dívida para com ele, mas numa relação "moderna". Os novos estatistas do Estadão chamam-lhe modernização da Administração Pública. Os eternos crentes do Estado maior aplaudem esta reforma, mas negam a verdadeira reforma a que Merkel alude quando refere o problema dos Estados europeus: temos 7% da população mundial, 25% do PIB mundial e 50% das despesas sociais! Algo vai mal nos reinos e nas repúblicas europeias. 

 

Perante a grandeza do problema económico e social, avidamente os políticos debatem os efeitos multiplicadores das taxas do IVA nos diferentes sectores. Assim tem de ser, à falta de ideias e de uma visão. Os programas eleitorais são uma colecção de medidas e de lugares comuns, sobre o Estado ou sobre o comportamento que a sociedade deveria ter (em que os cidadãos, empresas e empresários são uma casta pérfida e cheia de interesses…), mas nenhuma ideia central que, essa sim, poderia suscitar as verdadeiras medidas para cumprir uma nova visão para o País. É uma competição técnico-mediática para saber quem tem mais ou melhor numa lógica de novo-riquismo político.

 

Assistimos a uma falência política, que se quer esconder atrás dos supostos erros europeus, da ganância dos bancos e dos credores e da deslealdade da sociedade civil que não cumpre o que há a cumprir. O processo especial de recuperação do País já teve um administrador judicial: foi-se embora porque realmente já não era preciso para a gestão da dívida, mas deixou um problema económico e social e um Estado para resolver.

 

Não faremos nenhuma reforma por decisão autónoma. Os ventos de mudança da revolução americana e francesa com os seus liberalismos, das pensões de Bismarck, da social-democracia do Norte da Europa, das terceiras vias serviram para esta velha nação se ir ajustando, ainda que com atraso histórico. Temos de aguardar que a reforma se faça na Europa ou em qualquer país europeu para a podermos copiar: talvez a nossa maior especialidade. O relógio demográfico e da dívida ainda assim não se imobilizam por decreto.

 

Não temos o consenso político para promover a reforma, não temos elites capazes de a apoiar, não temos juventude que se revolte, não temos instituições sólidas e independentes, não temos capitalistas com capital, não temos professores motivados, não temos universidades financeira e moralmente independentes dos naturais interesses da sociedade e do seu velho Estado, não temos dimensão territorial que nos auxilie, e não temos sistema e instituições políticas reformistas. Somos situacionistas por atavismo. Devagar se vai ao longe, nem que se sacrifique o bem-estar de algumas gerações.

 

A minha geração é privilegiada: não combateu no Ultramar, não viveu a ditadura no estado adulto, não viveu as experiências terceiro-mundistas e ou comunistas que alguns temporariamente quiseram a seguir à revolução de Abril, não perdeu património com Abril, ainda que tenha assistido à destruição de capital que hoje tanta falta nos faz, não teve de emigrar, mas sim de retornar, não teve limitações de crédito, não teve fronteiras fechadas, não viveu sem oportunidades, e não viveu fundamentalismos de costumes. Temos de estar gratos a quem nos proporcionam tudo isto. No entanto, a geração anterior e a actual geraram uma demografia e uma dívida insustentáveis, logo uma sociedade inviável à luz do que vivemos, se nada se fizer. E geraram um Estado e uma cultura estatal inviáveis.

 

Os políticos do arco de governação - oriundos destas gerações, sem que isso deva ser interpretado como funesto - entupiram-nos de vãs palavras sobre reformas porque a Reforma é a reforma dos conceitos destas gerações. Diz-se tudo sobre reformas, faz-se quase nada. É por incompetência, ignorância ou irrealismo políticos? Ou são os políticos que estão prisioneiros dos eleitorados e das gerações que os elegem, e ou dos interesses das gerações que os financiam e promovem? Qualquer resposta pode servir. É só escolher a carapuça.

 

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