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Luísa Bessa lbessa@mediafin.pt 18 de Dezembro de 2003 às 14:21

“Falhanço miserável”

A quatro meses do alargamento, a Europa é o exemplo da confusão que resulta da falta de lideranças fortes e de objectivos claros. No PEC e no processo constitucional. E na diplomacia externa.

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Os internautas, em especial aqueles cujo coração bate mais à esquerda ou que padecem de algum grau de anti-americanismo (primário, secundário ou universitário), têm-se divertido nas últimas semanas com o exercício do “miserable failure”.

O caso já deu notícia na imprensa norte-americana e é muito simples de contar, embora menos simples de explicar. Uma pesquisa no Google a partir das duas palavrinhas apresenta como primeiro “link” a biografia oficial do presidente George W. Bush. Uma associação hilariante que resulta da classificação como “falhanço miserável” da política do presidente para o Iraque, promovida por sites associados a candidatos democratas ou a sectores críticos. Uma autêntica “bomba Google”.

Na semana em que soldados norte-americanos capturaram Saddam Hussein falar de “miserable failure” a propósito do Iraque pode parecer provocatório – embora a captura do ditador não signifique o fim da resistência. À cautela, fui ontem de novo ao Google em busca do “miserable failure” e lá estava, tudo como dantes. Com foto oficial e tudo.

Embora não simpatize com a personagem, parece-me, no entanto, algo injusto que apenas o ocupante da Casa Branca seja associado a um “falhanço miserável”. A política internacional ao longo de 2003 assemelha-se a um longo ciclo de “falhanços miseráveis” e nem todos podem ser imputados à administração americana.

Senão vejamos. Começamos o ano com a ameaça da guerra. A ameaça transformou-se em realidade, à revelia do Conselho de Segurança. O conflito armado foi mais rápido do que se chegou a temer porque a capacidade de resistência do regime se desfez como um castelo de cartas (as tais que as forças americanas usaram como estratégia de marketing para identificar os responsáveis do regime iraquiano mais procurados, e que os media mundiais repetiram à exaustão, sem qualquer pudor ou sinal de espírito crítico). A tomada de Bagdad não significou o fim do conflito nem a estabilização do país e os actos de terrorismo estão para continuar. Com Saddam ou sem Saddam, a estratégia americana para o Iraque está ainda muito longe do sucesso.

Mas há mais. Esta semana, a Organização Mundial do Comércio assumiu a incapacidade de prosseguir na nova ronda negocial para liberalização da economia. O falhanço da cimeira de Cancun, para o qual contribuíram sobretudo os países desenvolvidos, não alterou a disponibilidade negocial dos diversos blocos.

Este falhanço é mais nocivo para o processo de abertura da economia mundial do que todo o folclore anti-globalização. É a demonstração de que os países que dinamizaram o processo são os primeiros a não abdicar da protecção dos seus interesses particulares.

Finalmente a Europa. Os líderes europeus, que foram incapazes de falar a uma só voz sobre o Iraque, continuam a dar tiros nos pés. Deixaram cair o pacto de estabilidade sem honra nem glória para poupar a França e a Alemanha e prosseguiram com o “falhanço miserável” de um acordo em matéria constitucional. A quatro meses do alargamento, a Europa é o exemplo da confusão que resulta da falta de lideranças fortes e de objectivos claros.

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