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Falir ou acabar de vez

A discussão do caso Banif ainda não passou do domínio da culpa. A gestão foi incompetente? O Banco de Portugal, o Governo de Passos Coelho e a Comissão Europeia foram também incompetentes? Deixaram arrastar o processo?

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Até não ser possível fazer mais do que injetar uma enorme soma de dinheiro público? Houve delinquência pelo meio?  

Tanto milhão desaparecido a algum lugar chegou. Quem o tem? Enfim, é uma história que se repete. Pior, é uma história que se repete sem que se aprenda nada. Infelizmente, o Banif não será o último banco a tombar. Haverá mais. A declaração do atual ministro das Finanças de que não se gastará mais dinheiro público para salvar bancos é precipitada. Por uma simples razão. Os bancos só são privados quando dão lucro. No resto são um serviço público suportado pelo orçamento de estado.

 

Tal como tanta gente de boa-fé, não culpo o atual Governo pelo sucedido. Teve três semanas para resolver um imbróglio de três anos. Fez o que soube e pode, ou seja, cumpriu o guião escrito pelo Banco de Portugal e pela Comissão Europeia. Duas entidades que, mais uma vez, se preocuparam sobretudo com o sistema financeiro à custa do interesse e perda de soberania do país.

 

Veja-se a justificação que o atual Governo deu para limpar o Banif com 3.000 milhões de euros e o entregar a um privado por 150 milhões. Garantir a estabilidade financeira, proteger os depositantes e salvar os postos de trabalho.

  

Sobre a pretensa estabilidade estamos conversados. Não tem havido coisa mais instável do que o exercício da atividade bancária por cá, na Europa, e, bem vistas as coisas, no mundo. O sistema financeiro não tem nada de estável. É por sua natureza turbulento, imprevisível e, regularmente, catastrófico. Países inteiros têm sido destruídos pela lógica financeira que é, convenhamos, de tipo especulador. Ao contrário do que por aí se diz a especulação não é um percalço, não deriva de uma minoria de agentes malvados e gananciosos. A especulação é a essência do sistema financeiro. Uma especulação que assenta na exponencial criação de dinheiro virtual e no desvio do dinheiro particular, o dos depositantes, aforradores e só marginalmente dos acionistas, para a prossecução de negócios de todo o tipo, legais, ilegais e muitos absolutamente desastrosos. Uma especulação que assenta no sacrossanto direito do capital privado a gerir os seus negócios como lhe apetece, sabendo que quando as coisas correm mal lá está o dinheiro público para salvar as situações. Como disse e muito bem, num raro assomo de lucidez o ainda Presidente da República, mais cedo ou mais tarde a ideologia é confrontada com a realidade. Pois. A ideologia da iniciativa privada, do radical liberalismo capitalista, acaba invariavelmente por se remeter à realidade da única entidade que vela pelo bem comum, ou seja, o domínio público. É este aliás o jogo perverso do sistema financeiro. Privado no lucro, público no prejuízo.

  

O segundo e terceiro argumentos para doar o Banif ao Santander derivam desta visão. Salvar depósitos e postos de trabalho. Mas, por que razão deve o Governo acudir a umas empresas e não a outras? Porquê proteger umas economias e não outras? Tanto mais que já existe um mecanismo que protege os depósitos até cem mil euros. Quanto aos trabalhadores basta pensar que precisamente por estes dias a Soares da Costa vai despedir 500 colaboradores. São menos importantes do que os do Banif?

  

As questões da instabilidade bancária, dos negócios fraudulentos, do desvario da finança só começarão a resolver-se no dia em que os bancos vão à falência, como sucede com as outras empresas, e aqueles que cometem crimes ou declarada negligência, sejam responsabilizados pelos seus atos na justiça. Na Islândia, país de que nunca se fala, 26 banqueiros e políticos estão presos na sequência da crise de 2008. É por aí que tem de se começar.

 

Mas talvez seja preciso ir mais longe. Sendo na realidade o dinheiro todo ele público um dia terá de se ponderar seriamente se a atividade bancária não deve ser tratada ao mesmo nível da educação, da saúde e da segurança social. É que sendo certo que os privados fazem muitas coisas melhor do que o serviço público, a gestão do dinheiro de todos não é certamente uma delas.

 

Artista Plástico

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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