Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 16 de maio de 2018 às 20:33

Falta de iniciativa

O primeiro-ministro exprimiu a esperança de que os próximos trimestres tragam um crescimento ligeiramente superior da economia portuguesa. Vamos ver se assim será.

A economia europeia está em desaceleração, como revelam os números do 1.º trimestre, e a economia portuguesa também. O que disse o primeiro-ministro português? O principal, daquilo que se ouviu, é que essa desaceleração já estava prevista. Ora, o ponto é exatamente esse. Já estava previsto, e quais foram as medidas de que se ouviu falar na União Europeia e em Portugal para contrariar esse caminho? Não se ouviram medidas especiais de política fiscal, de incentivos ao investimento, mesmo de estímulo ao crédito para apoio à restruturação e reconversão das empresas. Acima de tudo, não se sentiu um ambiente de mobilização geral, impulsionado pelo Governo, a ligação com os parceiros sociais, no sentido de mantermos aquilo que se conseguiu em 2017 e que tão precioso é para Portugal: convergir com a média europeia. Como se sabe, para trilharmos essa rota de convergência, temos de crescer mais do que a média e, em 2018, está a acontecer outra vez o contrário. E isso é impensável em Portugal, porque precisamos, "como de pão para a boca", de aumentar a competitividade das nossas empresas e da economia em geral. As causas apontadas para esta desaceleração a nível europeu são pouco precisas e pouco explícitas, falando-se numa retração no comércio externo, mas ainda maior da procura interna. O crescimento existente será mais baseado no investimento e nas exportações, embora de modo muito moderado. Outra explicação aventada é a de o aumento dos salários ser muito moderado e de haver um ligeiro crescimento das taxas de poupança. Em relação a Portugal, tem sido referida, igualmente, uma performance fraca do setor financeiro.

 

O primeiro-ministro exprimiu a esperança de que os próximos trimestres tragam um crescimento ligeiramente superior da economia portuguesa. Vamos ver se assim será. O que nos parece é que um primeiro-ministro de um país que precisa de crescer mais deve também dizer que está em curso um programa de forte apoio aos empresários e às empresas para se aumentar o investimento e para melhorar a sempre fraca produtividade portuguesa. Não pode dizer isso até porque isso não existe, talvez devido às preocupações da maioria parlamentar serem outras.

 

Existe, na verdade, uma atitude excessivamente passiva nesta questão dos valores do comportamento da economia. Temos sem dúvida uma economia fortemente dependente, mas há sempre uma componente de voluntarismo positivo que não pode ser negligenciada. Se nos consolamos por o crescimento da nossa economia baixar só porque a dos outros países europeus também baixa, estamos, mais uma vez, a adiar a questão estrutural. Mais do que a questão da segurança ou da mobilidade no emprego, o que importa é haver emprego e quanto mais qualificado, melhor. Mas a visão deste Governo, e de quem o lidera, é de que é melhor criar mais lugares de funcionários públicos em vez de qualificar e aumentar os que já existem. Por mim, tenho a opinião contrária. É preciso garantir cada vez melhor qualificação a quem já trabalha no Estado, nomeadamente a quem entra de novo e, por outro lado, é importante não aumentar o peso do Estado e das suas despesas correntes.

 

Em Portugal, demore semanas, meses ou um ano, o Bloco de Esquerda vai conseguindo impor as suas posições, seja em questões chamadas fraturantes, seja em questões de regras de organização económica. Vemos até o Presidente da República, oriundo do centro-direita, a considerar normal a quebra do sigilo bancário acima de um determinado valor, e isso até sucede no momento em que está quase a entrar em vigor o Regulamento Geral da Proteção de Dados.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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