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Rui Neves ruineves@negocios.pt 25 de Dezembro de 2012 às 23:30

Filampa sem biguda s.f.f.

Em tempos de austeridade económica, adensa-se o volume de criaturas que, ocupando cargos de chefia, borrifam, sem vergonha nem freio, o seu carácter gelatinoso.

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O silêncio é a morte


E tu, se falas, morres

Se te calas, morres

Então, fala e morre. (Tahar Djaout)

Agosto de 1973, dia do 12º aniversário da minha irmã. Eu tinha pouco mais de dois anos . Por momentos, a Maria perdeu-me de vista. O portão do jardim privado estava aberto e eu entrei. Aproximei-me do gradeamento. O diabo apitou e eu pulei. A queda foi de 12 metros. Estive em coma – muito tempo, demasiado tempo. Perdi a memória, a fala, o andar. Tive que recomeçar tudo de novo. Tenho 41 anos, mas só costumo contabilizar 39.

Sempre que a mãe dos meus dois queridos sobrinhos mais velhos faz anos, a fita volta a passar. E recorda-se que, já depois da minha ressurreição, ganhei um especial gosto por fiambre: "Maía, Maía, vai ao fililico bucar filampa. Mas sem biguda!" Frigorífico aberto, toca a dar fiambre sem gordura (ilusão infantil!) aqui ao menino. Volvidos todos estes anos, continuo a gostar imenso de fiambre. Sempre sem a parte branca (nojenta) visível.

Não significa isto que tenha uma especial repulsa por substâncias animais gordurosas. Quanto à variante humana, sinto asco por pessoas untuosas – quer física quer intelectualmente. Em tempos de austeridade económica, adensa-se o volume de criaturas que, ocupando cargos de chefia, borrifam, sem vergonha nem freio, o seu carácter gelatinoso.

Veja-se o caso "Brutosgate". Aquilo mais parece a "A Casa dos Segredos". Pior: é protagonizado por profissionais que chefiavam, até há poucos dias, a Informação do serviço público de televisão. Não sei quem está a mentir (serão todos?), mas tenha a certeza que alguns dos que estiveram directamente envolvidos neste caso são escroques.

A outro nível, sabe-se que a crise faz disparar os casos de assédio moral e sexual no local de trabalho. A Autoridade para as Condições do Trabalho já veio a terreiro denunciar que estes são tempos que fazem emergir o que o homem tem de pior. Perante o agravamento das condições económicas, o fenómeno explode, sobretudo nas relações hierárquicas e assimétricas, com o chefe a tirar partido da situação de vulnerabilidade do subordinado para satisfazer egoisticamente os seus instintos mais torpes.

Ser forte com os fracos e fraco com os fortes é cobardia. Na comunicação social, numa altura de profunda crise, o perigo de condicionamento pelo poder (sobretudo) económico bate mais forte. Defender o posto de trabalho, o cargo de chefia e/ou a sobrevivência do meio de informação, são preocupações legítimas. O problema é que a angústia que trespassa grande parte destes profissionais é uma ameaça ao jornalismo exigente.

Mais do que a liberdade de imprensa, o que está em jogo é a liberdade de cada um de nós. Se for preciso, que milhares de "obviamente, demito-me" floresçam. Porque a consciência não é, não deve ser, um bem transaccionável. Lugar ao lugar comum: tenho medo de ter medo. Perdi metade da audição com a chamada do inferno. Mas se o diabo voltar a apitar, prometo não lhe dar ouvido.


*Coordenador do Negócios Porto

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