João Costa Pinto
João Costa Pinto 19 de fevereiro de 2018 às 20:17

Financiamento e negócio bancário - (I)

Para responderem às pressões que decorrem tanto do contexto regulatório e de supervisão, como da evolução da actividade económica, os bancos têm vindo a recentrar os seus modelos de negócio.

1. O mercado bancário permanece como o mecanismo central - quase exclusivo - de intermediação financeira na nossa economia. É por ele que passam os fluxos financeiros que suportam a actividade de consumidores, produtores e investidores e se propagam aos efeitos das decisões tomadas no âmbito da política monetária. Como sabemos, a resposta à crise financeira passou por alterações profundas do quadro legal e regulamentar - movimento que ainda não estabilizou - com um forte impacto sobre duas das principais condicionantes do negócio bancário: níveis de liquidez e capital. Acresce que no contexto actual - caracterizado por liquidez abundante, alimentada pelas intervenções do BCE num ambiente de baixas taxas de inflação - o capital transformou-se na condicionante central da actividade da generalidade dos bancos. Situação que ganha relevo acrescido nas economias em que - como na nossa - os principais bancos têm de absorver elevados níveis de créditos improdutivos e/ou incobráveis. Para responderem às pressões que decorrem tanto do contexto regulatório e de supervisão, como da evolução da actividade económica, os bancos têm vindo a recentrar os seus modelos de negócio. Ao fazê-lo condicionam as expectativas da generalidade dos agentes económicos - quanto mais elevado o nível de endividamento, mais forte é o efeito - e influenciam os seus comportamentos e decisões.

 

2. É à luz deste quadro que deve ser avaliado o modo como os nossos bancos estão a reorientar a sua actividade e as implicações deste movimento, quer a nível micro - dos próprios bancos, das empresas não financeiras e das famílias - como macroeconómico. Procurando refazer as suas condições de exploração e recuperar os níveis de remuneração de capital, os principais bancos têm vindo a adoptar - com agressividade comercial crescente - medidas com impacto nos principais blocos das suas contas de exploração. Estas, vão desde a remuneração dos depósitos a taxas reais negativas, até à cobrança generalizada de comissões, passando pela expansão das suas carteiras de crédito ao consumo, à habitação e às administrações públicas. Em contrapartida, tem-se verificado uma queda sistemática das carteiras de crédito às empresas. As implicações macroeconómicas desta evolução são muito complexas. Os aforradores estão a ser chamados a contribuir de forma claramente excessiva para a recomposição do capital bancário destruído durante a crise. Na verdade, o pagamento de comissões sobre depósitos sem remuneração ou próxima de zero corresponde em muitos casos à imposição de taxas de juro negativas. Sempre que tal acontece, significa para os aforradores uma perda efectiva de capital que é absorvido pelos bancos. Estes estão assim a "tirar partido" de uma "janela de oportunidade" que resulta da convergência de factores exógenos - em que avulta o efeito da política monetária mantida pelo BCE - e domésticos - predominância do pequeno aforro, numa economia em que o financiamento depende quase em exclusivo do crédito bancário. Por outro lado, tem-se vindo a verificar um aumento do crédito ao consumo e à habitação - este a taxas variáveis, com indexantes a níveis excepcionalmente baixos. As implicações desta evolução são múltiplas: induz a queda da taxa de poupança que já se encontra a níveis historicamente baixos e favorece de novo a acumulação de dívida por parte de muitos agregados familiares. Além de voltar a acentuar a questão do financiamento à modernização e ao aumento da eficiência do nosso tecido produtivo. Questões para outro dia. 

 

Economista

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