João Costa Pinto
João Costa Pinto 05 de março de 2018 às 21:47

Financiamento e negócio bancário - (II)

Embora o mercado bancário vá permanecer como um eixo central do sistema financeiro, é crucial desenvolver instrumentos alternativos, tanto para aplicação do aforro, como para financiar a economia e, em particular, as empresas.

1. No último artigo referi que a orientação que os bancos estão a imprimir à sua actividade de intermediação deve ser avaliada tanto a nível microeconómico como macro. De um ponto de vista microeconómico, estão a reorientar a sua acção no mercado com um objectivo central: refazer as suas condições de exploração, como via para proteger e remunerar o capital neles investido pelos accionistas. Nesta perspectiva, não surpreende que procurem multiplicar as comissões que cobram, nem que cortem de forma agressiva as taxas com que remuneram os depósitos, ao mesmo tempo que "se viram" para o crédito ao consumo, à aquisição de habitação e à Administração Pública, seguindo, aliás, o seu modelo tradicional de negócio. Na verdade, os bancos estão a reagir e a responder ao complexo conjunto de pressões e de estímulos que embora com origem externa - sobretudo regulação e política monetária únicas - têm um impacto macroeconómico que, no nosso caso, está a ser potenciado por desequilíbrios e factores internos. Estes vão desde o volume de NPL(*) ainda no balanço dos bancos até à atomização do nosso tecido produtivo e à fragilidade da estrutura financeira de muitas empresas que se apresentam com um peso excessivo de dívida bancária de curto prazo. Se, além disso, tivermos presente que a avaliação do risco do crédito a PME(**) se reveste de particulares dificuldades técnico/operacionais, compreendemos a retracção generalizada deste tipo de crédito no contexto actual. Dificuldades que reflectem tanto as fragilidades financeiras de muitas das nossas empresas, como a falta de vocação e interesse com que alguns dos nossos bancos sempre avaliaram este segmento do mercado de crédito, fortemente atingido pela crise do BES.

 

2. Esta situação conduz a avaliações claramente contraditórias. A nível microeconómico e sectorial a evolução está ser globalmente favorável, com a generalidade dos bancos a melhorar as suas condições de solvabilidade e exploração. Pelo contrário, de um ponto de vista macroeconómico é claramente desfavorável: por um lado, está a penalizar de forma crescente o aforro - quando a taxa interna de poupança se encontra a níveis histórica e perigosamente baixos - e a induzir de novo um endividamento de risco de muitos indivíduos e famílias. O sacrifício do aforro tem vindo a acentuar-se como um efeito colateral perverso da política monetária não convencional que o BCE foi forçado a adoptar. O comportamento do endividamento de risco resulta sobretudo de factores internos que podem ser enquadrados e condicionados por medidas de supervisão macroprudencial, como as que foram recentemente adoptadas; por outro lado, esta evolução vem confirmar as fortes limitações do nosso mercado bancário, quando se trata de financiar um desenvolvimento económico e social sustentado. Pelo contrário tem favorecido a reprodução de um tecido produtivo atomizado e pouco competitivo. Limitações que a crise veio acentuar, como mostra a evolução do crédito às empresas. Embora o mercado bancário vá permanecer como um eixo central do sistema financeiro, é crucial desenvolver instrumentos alternativos, tanto para aplicação do aforro, como para financiar a economia e, em particular, as empresas. Questões para outro dia.

 

(*) NPL - créditos improdutivos.

 

(**) PME - Pequenas e Médias Empresas.

 

Economista

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