Paulo Carmona
Paulo Carmona 01 de maio de 2019 às 19:15

Foge, Centeno, foge

Em tempo de vacas gordas este Governo esganou, cortou e cativou despesas até ao limite do funcionamento dos serviços públicos. E com a subida anual dos impostos indiretos levou as receitas fiscais a um recorde de 35,4% do PIB.

A FRASE...

 

"Costa quer Centeno numa segunda legislatura e Pedro Marques comissário europeu."

 

TSF, 30 de março de 2019

 

A ANÁLISE...

Tenho Mário Centeno por um técnico admiravelmente inteligente. Tomou posse e logo aprendeu a viver no palco da narrativa, contranarrativa e "spinning" em que este Governo é forte. E sempre com a mesma face consegue dizer o mesmo e o seu contrário, conforme se trate do Financial Times ou dum jornal aqui da terra. E sobretudo sabe que não poderá ser Ministro das Finanças no próximo Governo. É fundamental sair para a Europa, ou no mínimo um cargo aliciante no Banco de Portugal, tudo o resto são cortinas de fumo e guerras surdas.

 

Porque Mário Centeno sabe perfeitamente que o seu sucessor estará bastante prejudicado com a herança deixada por este Governo. Em tempo de vacas gordas este Governo esganou, cortou e cativou despesas até ao limite do funcionamento dos serviços públicos. E com a subida anual dos impostos indiretos levou as receitas fiscais a um recorde de 35,4% do PIB. Ao pé deste brutal aumento de impostos, sobretudo nos invisíveis como os combustíveis, Vítor Gaspar é um menino de coro.

 

E para 2020 e seguintes? No investimento público, em 1,97% do PIB, o mais baixo da EU, já não consegue cortar muito mais. E se comer os ovos todos, amanhã não terá galinhas para pôr mais, sem falar na segurança das infraestruturas e atrasos. Nos serviços públicos, o garrote terá ido para lá do limite, e nos impostos também. Sobre as empresas estamos com o 4.º IRC mais alto da EU, agravando a competitividade das empresas, o seu autofinanciamento e o investimento estrangeiro. No IRS é quase impossível. 75% dos agregados têm rendimentos de 2.000 euros/mês, já com enormes dificuldades, não podem ter mais tributação dos rendimentos. Pelo contrário poupam o mínimo possível, umas das taxas mais baixas da Europa, pendurados em crédito, e pagando já uma enormidade nas taxas cegas e indiretas sobre o consumo de bens.

 

Como exemplo do osso em que estamos, esta semana o Eurostat veio envergonhar-nos mais uma vez. Os portugueses têm o segundo salário médio mais baixo da zona euro, 14,4 euros/hora em 2018, metade da média europeia, 45 anos depois de Abril.

 

Com um país de pobres, crescimentos menores, impostos estratosféricos, investimento púbico no chão, menos turismo e mais necessidade de despesas sociais, pelo envelhecimento e algum desemprego, que será das contas públicas? Foge, Centeno, foge.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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