Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 26 de março de 2018 às 19:50

Francisco Lucas Pires e o caminho para uma sociedade aberta

Se nunca me deixei comover pelo federalismo europeu, tão presente em Lucas Pires, sempre me impressionou a ambição, o otimismo, o sentido reformista, a liberdade consequente nas políticas públicas, a adesão a essa sociedade aberta que tanto me inspira.

Francisco Lucas Pires morreu há vinte anos e está ainda por fazer uma justa reflexão sobre a importância política e ideológica do seu pensamento e ação. No que me diz respeito, não tenho dúvidas: Lucas Pires definiu e inspirou o mais lúcido e reformista programa de governação do pós-25 de Abril. Tão lúcido, que mantém a sua atualidade; tão reformista que, no essencial, está ainda por cumprir.

 

Não fica por aí, claro, o seu papel. Foi ele quem primeiro densificou o Ministério da Cultura, assumindo a cultura como pressuposto de qualquer projeto reformista. Foi ele o coordenador-geral da AD, a primeira contraposição ao único caminho que parecia autorizado após a revolução. Mas é na afirmação - filosófica, ética, ideológica e pragmática - da alternativa ao socialismo, desassombradamente assente na liberdade, na "liberdade contra o socialismo", que reside, para mim, o relevo de Lucas Pires.

 

É o primeiro político a oferecer um conteúdo ambicioso, de futuro, à "instituição do Homem como centro de gravitação política". Fá-lo logo em 1975, com "Uma Constituição Para Portugal", não embarcando nem no socialismo nem nos pruridos linguísticos em voga. Nele tudo era claro, a liberdade, a sociedade aberta, a iniciativa dos cidadãos, a mobilidade interna e externa, a ambição coletiva e pessoal.

 

Não se tratava de uma afirmação ideológica abstrata. Pelo contrário, havia um impulso de ação, profundamente ético, com uma forte componente geracional: "Corresponder ao apelo da gente nova das gerações ascendentes ativas, num mundo em que as gerações contarão mais do que as classes ou as ideologias", representar uma geração "que tem um enorme apetite descobridor, que quer mudar o mundo, que quer uma mudança qualitativa". Esse apelo geracional justifica a sua popularidade nos jovens, que o fizeram presidente honorário da Juventude Centrista.

 

Esse sentido de ação ditou o primeiro programa eleitoral em Portugal capaz de afirmar, preto no branco, sem hesitações, o caminho para a superação do socialismo: o "Programa para uma Nova Década", elaborado entre 1984 e 1985 pelo chamado Grupo de Ofir, e que é para mim ainda hoje uma inspiração.

 

Um documento em que, área a área, se coloca a liberdade em ação e se propõem as reformas que qualquer país desenvolvido europeu há muito empreendeu e por aqui nunca saíram do papel. Porquê? Porque nunca surgiu contexto político suficiente para superar a estatização da economia e da nossa sociedade, para superar a permanente querela ideológica que vê ameaças em tudo o que mexe, em tudo o que o Estado não controle: "As metas principais do país devem ser, em primeiro lugar, a liberdade da economia, em segundo lugar, a autoridade do Estado e, em terceiro lugar, a mobilidade da sociedade."

 

O programa foi posteriormente editado em 1988, com o sugestivo título "No caminho da sociedade aberta". Atualíssimo título porque os desafios de 1985, nesta visão de Lucas Pires, continuam por vencer, não já à escala europeia, mas à escala global. Como reagir a toda esta mudança, ao novo, ao que nos interpela? Fechando ou abrindo a sociedade? Não tenho tido dúvidas em afirmar a segunda opção, e tem sido essa a motivação do meu discurso político, razão pela qual volto ao Grupo de Ofir na hora de coordenar um programa eleitoral - tarefa que tenho em mãos.

 

Se nunca me deixei comover pelo federalismo europeu, tão presente em Lucas Pires, sempre me impressionou a ambição, o otimismo, o sentido reformista, a liberdade consequente nas políticas públicas, a adesão a essa sociedade aberta que tanto me inspira.

 

Advogado

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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