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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 27 de Março de 2009 às 11:46

Futuros possíveis

O convite de um programa de rádio sobre o futuro levou-me a fazer alguma investigação e chegar a umas quantas conclusões, se é que se pode falar de conclusões quando se trata de matéria tão imponderável...

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O convite de um programa de rádio sobre o futuro levou-me a fazer alguma investigação e chegar a umas quantas conclusões, se é que se pode falar de conclusões quando se trata de matéria tão imponderável. De qualquer modo alinhavei um conjunto de ideias sobre futuros possíveis que aqui deixo.

Ainda que muita gente tenha uma enorme fé na bondade humana e preveja idades de grande fraternidade, é bastante mais provável que iremos caminhar para um crescente aprofundamento da separação de tipo classista ou mesmo de castas. A divisão entre ricos e pobres, que sempre esteve e continuará presente, tornar-se-á muito mais significativa no futuro porque à variável económica se irá juntar o distinto acesso às tecnologias. E isto será ainda mais determinante já que as próprias tecnologias também mudarão muito. Hoje, elas ainda se configuram sobretudo como interfaces, ou seja, algo externo, de que são exemplo o computador, o telemóvel ou a prótese. Mas no futuro a tecnologia invadirá o nosso corpo com diversos tipos de implantes, nano-máquinas que percorrerão as veias ou diversas manipulações genéticas. Assim, quem não tiver possibilidade de realizar estas intervenções ficará significativamente diminuído na sua capacidade de sobreviver e usufruir dos avanços e benefícios tecnológicos. A humanidade cindir-se-á de forma muito mais marcada do que hoje em dois tipos de humanos, os que vivem no seu tempo, e os que sobrevivem num tempo remoto e numa condição sub-tecnológica.

Esta realidade ampliará os choques civilizacionais. A sub-espécie tenderá a recorrer crescentemente à violência e, em consequência, a insegurança aumentará. Os mais ricos, tal como hoje, exigirão medidas de vigilância, repressão e afastamento dos pobres. Ora as novas tecnologias permitirão criar sofisticados "big brothers" que eliminarão por completo o conceito de vida privada. Toda a gente será constantemente vigiada a todo o tempo.

Veja-se, a este propósito, como já hoje comerciantes, cidadãos e polícias exigem vídeo vigilância um pouco por todo o lado. Cada passo em direcção ao "big brother" parecerá lógico e razoável, até ao dia em que será insuportável para a vasta maioria.

Outra consequência do conflito de tipo classista será o "apartheid" social. As prisões actuais são objectivamente obsoletas, pelo que a tendência passará primeiro pela privatização das cadeias e algum tempo depois por um processo de afastamento dos delinquentes e sobretudo dos potenciais delinquentes. Assim é de prever o aparecimento de vastos campos de ostracizados, alguns do tamanho de pequenos países.

Contudo, o grande sobressalto civilizacional terá lugar com o supremo atentado. Algures nas próximas décadas alguém detonará um artefacto nuclear, químico ou biológico numa cidade matando, de uma só vez, muitos milhares de pessoas. É difícil prever como reagirá o mundo, mas o curso dessa acção irá definir de forma irremediável o caminho da humanidade.

Mas nem tudo será negro no futuro. Pelo menos para uma parte da espécie humana irá ser possível, dentro de algumas décadas, erradicar a maioria das doenças, viver para lá dos 120 anos, aumentar a inteligência, explorar novos mundos e novas sensações.

A Internet, tal como a conhecemos, irá desaparecer para dar lugar a uma nova rede virtual, uma verdadeira vida paralela, onde as pessoas passarão grande parte do seu tempo a trabalhar, conviver e divertir-se. Através de implantes espalhados pelo corpo será possível aceder a esta "nova Internet" com um simples acto de vontade.

Com muito mais tempo de vida o actual consumismo de objectos e gadgets será substituído pela procura de emoções, sensações, experiências, pela ampliação das capacidades mentais ou pelo implante de memórias directamente no cérebro. O redesenho de cada indivíduo começará à nascença, com a manipulação genética, e prolongar-se-á durante toda a vida, um pouco à maneira como hoje se fazem operações plásticas.

E, claro, surgirão máquinas inteligentes e robôs que mais do seguir as nossas ordens e realizar tarefas repetitivas como actualmente, se tornarão numa nova espécie dominante no planeta, com tudo o que isso terá de positivo e enormemente desafiador para o nosso próprio futuro.
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