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Nicolau do Vale Pais 27 de Julho de 2012 às 12:49

Gente Simples

Porque sabe muito da poda que lhe interessa - manter o Poder - Pedro Passos Coelho elogiou esta semana em Cantanhede uma tal de "gente simples", que "percebe o que o Governo está a fazer"

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Porque sabe muito da poda que lhe interessa - manter o Poder - Pedro Passos Coelho elogiou esta semana em Cantanhede uma tal de "gente simples", que "percebe o que o Governo está a fazer", deslocando o seu discurso pela primeira vez desde que se encontra em funções, da base eleitoral do empresariado e da classe ainda média, para essa tal abstracção a que decidiu chamar "gente simples". Não sabemos se se referia aos soldados rasos que pululam na esfera partidária e lhe vão dizendo ámen a todos os disparates, ou se estava a falar, por outra, daqueles Tenentes que precisam de martelar uma licenciatura por medo de virem a ficar mais instruídos e, portanto, desautorizados pelos mais "simples".

Tenho para mim que - apesar de todo o respeito que me merecem as manifestações cívicas de indignação - quem pede a demissão do Ministro Miguel Relvas ainda não percebeu nada sobre o sistema partidário português, os seus caminhos promíscuos, populistas e abandalhados, ou sobre a corrupção irresponsável a que os Partidos e homens como Relvas - com o beneplácito do primeiro-ministro - votaram a credibilidade do nosso sistema Democrático (*). Não há qualquer responsabilidade pública por nada, e o melhor exemplo foi José Sócrates, um devaneio politicamente nulo muito antes ainda de ser julgado um "mentiroso", mas de cujo péssimo serviço prestado só nos conseguimos livrar por agressão de carácter e contrapropaganda, a mais pobre de todas as formas de debate. Daí que neste, como noutros casos, o regresso seja sempre uma tenebrosa possibilidade, e o nosso amadurecimento, uma miragem.

A alavanca vaga e frágil de Pedro Passos Coelho foi dizer aos portugueses que o voto regenera o sistema por si só; depois, tem vindo a enganar-se a si próprio - como gente simples - convencendo-se de que a intenção dos portugueses em livrarem-se do seu antecessor era realmente um salvo-conduto plebiscitário para toda e qualquer nuance de estilo que lhe apetecesse adoptar e chamar de "governação". Porque o Governo, neste momento, não passa disso mesmo: uma nuance de estilo, com bela locução pela voz - bonita, aliás - do seu líder.

Entre o capitalismo populista de mão aberta e em final de época que Sócrates nos vendeu como "esquerda moderna", ou a treta de conversa da disciplina nas contas e moral na conduta que Passos asperge para nos benzer e purificar, a diferença é de nuance apenas, forma, estilo, e pouco mais. O bloco de interesses corporativo, oligarca, tentacular, esse, continua e continuará até que algo de dramático aconteça ou até que se (re)comece a fazer política. Leia bem, meu simples leitor: a troika que Passos cita para nos massacrar com suicidários aumentos de impostos é a mesma troika que insiste, uma e outra vez, no problema das rendas excessivas do sector energético. Passos, Álvaro ou Gaspar nem se mexem, assobiam para o lado; quem teve de se pôr a andar foi o secretário de Estado da Energia, guardando para si as conclusões do episódio. Nós ficámos sem saber, como gente simples. Percebe, com certeza, o que isto quer dizer, e o que vai de devaneio hipócrita sobre a realidade, quando se apela ao empreendedorismo num país com este contexto de cobardia política.

O sentimento português tem, de facto, um lado bonito na sua pequenez e simplicidade, que se pode atribuir a um nível de industrialização relativamente baixo em relação aos seus congéneres europeus e a uma reinvenção muito inteligente e sadia da propaganda etno-salarista de floreados ocos para analfabetos e estômagos vazios. Sucede que aquilo que é conforto na identidade rapidamente se transforma em hipocrisia quando propagandeado pelo poder. Veja como é simples: onde pára a Sra. ministra da Agricultura durante mais este inferno de incêndios, iniciado logo após a aprovação de mais uma Lei de promoção do Eucalipto?
Seremos simples, talvez, estúpidos é que não.




(*) achei alguma graça ao "escândalo" das declarações de D. Januário. Sem espinhas nem floreados: um país que tem um primeiro-ministro que não percebe a indelicadeza e brutalidade das suas (muitas) afirmações e inconveniências, ou é um país estúpido, ou está corrupto. Escolho a segunda. Corrupção não é só troca de dinheiro por favores

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