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Geração praxada nação lixada

As praxes são um dos exemplos de um país que se degrada na sordidez e na brutalidade. Em vez de prepararem os jovens para uma vida ativa e produtiva muitas das nossas universidades dedicam-se à formação de bandidos. É essa a realidade.

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A investigação ao caso da praia do Meco tem sido conduzida por jornalistas. Passadas semanas a polícia continua a estudar quem deve entrevistar primeiro, enquanto as famílias se metem ao barulho e o assunto chega ao circo parlamentar. Portugal prepara-se para mais um daqueles imbróglios que duram anos, ocupam títulos e tempo das televisões e no fim dão em nada.

Há alguns anos atrás, sobretudo com o aparecimento das novas universidades, os jovens decidiram imitar a antiga Coimbra, criando um simulacro de traje académico, quase sempre fundo preto cheio de carimbos irrelevantes, e rituais estúpidos a condizer. Disseram que servia para ajudar à integração dos novos estudantes, pelo que reitores e diretores das respetivas universidades ficaram todos contentes com esta "criação espontânea de identidade", lhes deram todo o apoio e promoveram a "marca". Depois começaram a surgir os casos. Traumas e mesmo mortes. Os responsáveis pelas universidades primeiro abafaram depois afastaram-se da coisa, dizendo agora que nada têm a ver com o assunto. Ou seja, reitores e diretores das universidades consideram nada ter a ver com um assunto central na atividade das suas instituições.

A praxe nunca foi um exercício de integração, mas sim de discriminação. Desde logo só os praxados têm direito a andarem vestidos de palhaços. Os outros não. Divide os estudantes em dois grupos e dessa forma exerce uma enorme pressão psicológica sobre todos. Os jovens, pela sua natureza débil, têm necessidade de pertencer ao grupo e sofrem sempre que são postos de lado e isolados. Só isso bastaria para se perceber como o mecanismo é intolerante e intolerável. Mas há mais.

A praxe organiza-se em hierarquia, impondo uma visão da sociedade em que uns mandam e outros obedecem irracionalmente. Dessa forma "preparam" os jovens para uma vida de obediência aos chefes e estes para o exercício da brutalidade. Condição nefasta não só para os próprios, mas para a própria sociedade que precisa de gente livre, criativa, com capacidade e ambiente para desenvolver novas ideias. Ou seja, através destes rituais as universidades tornam-se centros de promoção da incompetência.

Sobre os rituais está tudo dito. São no essencial obtusos assentando quase exclusivamente na humilhação dos "caloiros", passando com frequência para a agressão, física e psicológica. Os exemplos abundam e as suas consequências também. Trata-se da banalização da brutalidade no meio académico. Enquanto os pobres têm as claques de futebol, os ricos têm as suas praxes. Vai tudo dar ao mesmo.

No seu devido tempo, Mariano Gago, na altura ministro da Educação, chamou à praxe uma manifestação "fascista e boçal" apelando aos responsáveis pelas universidades para lhes porem termo. Acertou não só na descrição, mas também no verdadeiro alvo. Pois se os alunos são culpados da sua imbecilidade mais culpados são ainda aqueles que, tendo a seu cargo a formação dos jovens, toleram e até promovem tais exercícios. Porque não tenhamos qualquer dúvida. Reitores e diretores são na verdade os maiores responsáveis pelo estado a que chegou esta dita prática académica, na verdade uma prática criminosa. Não basta por isso condenar os jovens. Reitores, diretores das universidades assim como os membros das associações académicas deviam ser acusados de incitação ao crime não fosse a nossa justiça sempre desatenta e branda com os maus costumes.

Caso se venha a provar que as recentes mortes na praia do Meco resultaram daquilo que os telejornais vão descrevendo, não basta condenar o principal promotor que sobreviveu. A Universidade Lusófona, farta em casos indignos, devia ser alvo de um inquérito sério e sofrer as respetivas consequências. Uma delas podia ser o seu merecido encerramento. Bem pode agora o reitor dizer que é contra as praxes ou o habitual Damásio dizer que não é nada com ele, nunca é, já que a questão reside em saber o que fizeram para as evitar.

As praxes são um dos exemplos de um país que se degrada na sordidez e na brutalidade. Em vez de prepararem os jovens para uma vida ativa e produtiva muitas das nossas universidades dedicam-se à formação de bandidos. É essa a realidade.

Artista Plástico
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Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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