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Negócios negocios@negocios.pt 24 de Setembro de 2002 às 19:33

Gestores, Meliantes e outros Tratantes!

A empresa, como a conhecemos e com o tradicional papel que tem assumido, está condenada. Porque não se adaptou aos tempos modernos, porque não se reconstruiu, porque abandonou as estratégias ao serviço da casuística pura e do lucro imediatista.

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Os recentes acontecimentos da Enron e da Worldcom – e toda a campanha que sobre os mesmos vem sendo desenvolvida – trata os gestores, nomeadamente os gestores de topo, como se de meros meliantes se tratasse.

A acreditar nas palavras de todos os analistas que se têm pronunciado sobre o tema, os gestores são um grupo de malfeitores, cujo único papel é o de ludibriar tudo e todos, começando pelos próprios accionistas e terminando no Estado.

O que é curioso é que foram os próprios lesados a elaborarem as leis e as práticas que estão na origem dos escândalos já referidos.

Quando os accionistas exigem prestação de contas trimestral – estamos a falar dos EUA – e ao menor sinal de decréscimo dos lucros, exigem a cabeça dos administradores (normalmente, gestores profissionais); quando o Estado elabora leis que visam desenvolver o mercado de capitais e, concomitantemente, a gestão financeira e monetarista da economia, sem cuidar da verdadeira produção de bens e serviços e das crises que as mesmas, de forma mais ou menos cíclica, atravessam, o que dizer?

Em primeiro lugar, referir que o papel dos gestores profissionais, principalmente nos EUA, é um papel sujeito a pressões diárias quase insuportáveis e que são esses mesmos gestores agora alvo de todas as infâmias que conduziram as grandes empresas americanas aos resultados que permitiram alavancar a economia mundial, em anos ainda bem recentes.

Que são esses mesmos gestores que se insurgem contra as práticas contabilísticas que não se adaptaram aos tempos modernos e que ainda vêem nos activos tangíveis os únicos activos reais, impossibilitando dessa forma que os activos ditos intangíveis assumam o valor que realmente possuem.

Que são esses mesmos gestores que investem biliões de dólares em investigação e desenvolvimento e em programas assistênciais, suprindo a negligência criminosa das últimas administrações americanas e cujo resultado é uma massa cada vez mais significativa de cidadãos americanos que não beneficia de assistência na doença e no desemprego.

Que são esses mesmos gestores agora indiciados de crimes, que construíram uma rede impressionante de contratos e de subcontratos, que tem permitido a sobrevivência a muitas economias emergentes.

É evidente que alguns gestores são autênticos escroques. Têm uma atitude empresarial criminosa e utilizam as empresas para, em exclusivo, obterem rendimentos e benefícios para si próprios. Esses, devem ser indiciados e punidos, pois as suas práticas devem ser banidas do mundo empresarial.

Mas por causa de um punhado de tratantes, não pode a classe dos gestores ser tão enxovalhada, tão vilipendiada, tão maltratada.

O Congresso dos EUA chegou ao cúmulo de preparar legislação que controla mais os gestores e as suas práticas, do que os políticos, estando a preparar leis que exercem mais controlo sobre as empresas do que no tempo em que elas eram maioritariamente públicas.

Esta fúria contra os gestores e as empresas, nos EUA, encontra algum paralelo na Europa e mesmo, no nosso país, consubstanciando uma autêntica caça às empresas e aos gestores, a que urge pôr cobro.

É evidente que a empresa, no sentido em que a conhecemos e com o tradicional papel que tem assumido, está condenada. Porque não se adaptou aos tempos modernos, porque não se reconstruiu, porque abandonou as estratégias ao serviço da casuística pura e do lucro – não importa a que preço – imediatista.

Todavia, ainda não se encontrou o modelo capaz de as substituir na sua função de criação e geração de riqueza e de moderadoras dos fluxos económicos e sociais.

Porventura, lá chegaremos e, se calhar, num futuro mais próximo do que todos imaginamos.

Agora eleger a empresa – e de forma indirecta todos os que nelas trabalham e ganham a sua vida – como os inimigos do progresso e os autores de todas as malfeitorias, é, no mínimo, um exagero e revela pouca consciência de quem assume tal partido.

Os gestores, com maior ou menor qualidade, com maior ou menor preparação, com maior ou menor controlo público, ainda continuam a ser uma peça essencial em que assenta todo o edifício económico e social, pois são eles que procuram, a cada instante, combinar da melhor forma os meios e os recursos disponíveis.

O que não deixa de ser engraçado, é que os mesmos Estados que agora se assanham contra os gestores e as empresas, são os mesmos que pretendem privatizar quase toda a economia e os serviços públicos, tornando-os em empresas, para as quais vão precisar dos tais gestores agora postos em causa. Nessa altura, e relativamente a essas empresas, terão o mesmo comportamento? Ou, pelo contrário, vão aprovar medidas de excepção?

Devemos reflectir sobre tudo isto e procurarmos outras vias e outros caminhos, buscando soluções mais equilibradas e mais justas, mais capazes de enfrentarem os problemas e mais sólidas quanto à sua prevalência no tempo.

Preparar melhor os gestores, aprovar cartas de ética e de cidadania empresarial, reformular os modelos e os sistemas contabílisticos, abandonar as noções de criação artificial de valor, desenvolver novos modelos de gestão, procurar novas e melhores formas de organização empresarial, ter preocupações ambientais sérias, aplicar bem os recursos gerados, são concerteza alguns dos caminhos a percorrer. Urge promover uma nova dignidade empresarial e transformar as empresas em espaços sadios de realização pessoal e profissional.

Mas não é isto que os verdadeiros gestores já tentam fazer?

A campanha que os media americanos – seguidos, como é hábito, por alguns media portugueses – têm feito contra os gestores, merece respostas e respostas duras, pois o verdadeiro gestor nada tem a ver com práticas ilegais, de falsificação de dados e de informação, de mentira e de desinformação.

E se não foram os gestores a defenderem-se a si próprios, não podem esperar que os Estados – sejam eles quais forem – o façam, pois, pelos vistos, para estes, os gestores não passam de meliantes e de tratantes.

Nota Final:


Só espero que a intenção de privatizar o Oceanário de Lisboa, revelada pelo Governo Português, não seja mais uma forma de encontrar pretexto para depois crucificar um gestor. É que, neste momento, esse pretexto não existe.

Luís Bento

Partner da SERH

Comentários para autor e editor para negocios&estrategia@mediafin.pt

Artigo publicado no Jornal de Negócios – suplemento Negócios & Estratégia

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