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Luísa Bessa lbessa@mediafin.pt 05 de Janeiro de 2007 às 13:59

Gestores à beira de um ataque de nervos

Neste país de brandos costumes, também há casos de "salários milionários". Aqueles de que se fala estão quase sempre associados a cargos públicos ou afins, seja a novela do salário do director-geral dos Impostos ou as reformas do Banco de Portugal ou da C

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De vez em quando também surgem exemplos de algumas grandes empresas cotadas, entretanto obrigadas a divulgar remunerações (que a maior parte faz de forma agregada) mas, sem o picante adicional da política, a polémica morre antes de o ser.

É uma peculiaridade doméstica de uma discussão que se faz à escala global e que ontem ganhou um argumento decididamente "sexy" com a renúncia de Robert Nardelli como CEO da cadeia norte-americana Home Depot, com uma indemnização global de 210 milhões de dólares. Nardelli, cuja remuneração na Home Depot já alimentava grandes discussões públicas e era objecto de críticas por parte de alguns accionistas insatisfeitos com o seu desempenho, faz ainda mais estragos à saída.

Desde o início da década, com os grandes escândalos corporativos, que as remunerações dos executivos das grandes empresas estão sob escrutínio público. E não é caso para menos, pelo menos à luz dos números que chegam da realidade americana, onde o diferencial do salário médio entre os presidentes das empresas e o dos trabalhadores passou de 40 para 400 em apenas duas décadas. Face à ausência de dados a nível nacional, aí está um bom tema de trabalho para os nossos académicos.

O disparo das remunerações dos cargos de topo das empresas é uma consequência do funcionamento do mercado e explica-se pela necessidade das empresas captarem os melhores talentos, os executivos melhor preparados para enfrentarem desafios cada vez mais complexos. Os executivos mais famosos passaram a fazer parte de uma espécie de "star system" e naturalmente são pagos a peso de ouro. Em empresas de capital disperso, a forma como os salários dos gestores são fixados acaba por ser determinada pela própria gestão, por mais rigorosas que sejam as regras de governação e mais independentes que sejam as comissões de remuneração. O que leva alguns a dizerem agora que o que se passa com os salários  dos gestores é contrário às regras de mercado.

As regras apertaram mas os salários dos gestores continuaram a aumentar enquanto os dos trabalhadores estagnaram. Como se não bastasse, os benefícios dos gestores, com os seus pacotes de "stock options", planos privados de reforma e compensações para cessação de contratos, são um oásis quando comparados com a pressão que tem sido posta na diminuição das regalias sociais obtidas nos últimos 50 anos, para acomodar os efeitos do envelhecimento da população e o aumento das despesas de saúde. Uma tendência que é comum ao Estado social europeu e aos generosos programas das empresas norte-americanas.

Esta crescente disparidade coloca problemas de ordem moral e tem implicações práticas. Não é fácil fazer os trabalhadores aceitar sacrifícios quando quem os pede está sempre bem protegido. Os gestores têm de dar o exemplo.

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