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Carlos Almeida Andrade - Economista 29 de Janeiro de 2015 às 20:45

Grécia: da poesia à prosa

É costume dizer-se que, em política, se faz campanha em poesia e se governa em prosa. Vem isto a propósito da entrada em funções do novo governo na Grécia, que enfrenta um fosso entre as promessas de campanha e a realidade dos factos.

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Recentemente, generalizou-se a ideia de que o Syriza tinha moderado o seu discurso face aos credores externos. Mas, na verdade, nas suas posições essenciais, o Syriza não parece ter dado quaisquer sinais de moderação. O novo governo pretende negociar um corte de 50% na dívida pública, actualmente em cerca de 175% do PIB (e detida em cerca de 80% por credores oficiais) e, simultaneamente, pretende reverter os esforços de consolidação orçamental e reformas estruturais dos últimos anos. O foco principal tem incidido, no entanto, sobre a dívida pública, considerada demasiado elevada para ser viável. 

 

A sustentabilidade da dívida não se mede apenas pelo seu montante. O Japão tem uma dívida de 245% do PIB e não se discute a sua sustentabilidade. Outros factores são, por isso, importantes, incluindo os prazos de pagamento, o nível dos juros ou a capacidade de gerir e atrair poupança. Contrariamente àquilo que poderá ser a percepção comum, o peso do pagamento dos juros da dívida por parte da Grécia não é elevado, e muito menos "punitivo". A Grécia beneficia de um período de carência de juros de 10 anos e de maturidades acima da média nos empréstimos oficiais europeus. Os empréstimos do EFSF têm um "spread" de 1 ponto base sobre o custo de financiamento deste organismo, enquanto os empréstimos bilaterais têm um "spread" de 50 pontos base sobre a Euribor a 3 meses (que actualmente se encontra em torno de 5 pontos base). Tendo em conta também que os ganhos do BCE com a dívida da Grécia são entregues a este país, estima-se que o peso dos juros suportado pela Grécia tenha representado, em 2014, perto de 2,6% do PIB, com tendência de queda em 2015. Este valor pode ainda ser reduzido, com uma nova descida do "spread" dos empréstimos bilaterais.

 

As maturidades e os períodos de carência poderão também ser estendidos adicionalmente. No seu conjunto, estas alterações poderiam reduzir significativamente os encargos da Grécia com a dívida pública, reduzindo o seu valor actualizado sem reduzir o seu valor nominal. Acredito que algo parecido com isto será proposto à Grécia pelos seus parceiros europeus. E faria sentido que este tipo de actuação (eventualmente estendido a outras economias) pudesse ser acompanhado por estímulos à procura interna global da Zona Euro (sobretudo por parte de quem tem essa capacidade), bem como pela continuação dos esforços de melhorias estruturais na produtividade nesta economia. Mas cortar simplesmente 50% ao valor da dívida grega não parece politicamente viável, e traria outras possíveis consequências negativas, incluindo dificuldades futuras no processo de integração e solidariedade orçamentais da Zona Euro. A democracia também existe nos outros países, não apenas na Grécia. A vontade popular destes outros países, por vezes diferente daquela expressa agora pelos eleitores gregos, também tem de ser respeitada pelos respectivos governos. Sobretudo, não faz sentido cortar 50% na dívida e, no dia seguinte, começar a acumulá-la de novo, na ausência de alterações estruturais na economia e nas contas públicas (aliás, quem estaria disposto a financiar esta dívida…?). Receio que o governo grego não esteja disposto a ceder neste ponto, devendo insistir nas diversas promessas de aumento dos gastos públicos, mesmo sem o dinheiro para as concretizar. E é pouco provável que os parceiros europeus da Grécia abdiquem desta exigência de reformas e consolidação orçamental, como contrapartida para a flexibilização das condições de pagamento da dívida. Esperam-nos, por isso, tempos "interessantes".

 

Economista-chefe - Novo Banco

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